Kinho vai ao Maracanã

Com um único toque na bola, o volante do Rio Branco garante mais 90 minutos de Copa do Brasil para o esquadrão do Acre

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Eu não sei bem quem é Kinho. O que sei é pouco, e sei porque vi. Porque os jornais não contam e o Wikipedia não registra. Sei que joga de volante. E que enverga a camisa 5 do Rio Branco, do Acre. E que antes usava a 8 do Galvez. O resto, eu não sei. Mas imagino. Imagino que a essa hora, enquanto escrevo, Kinho se vira pela cama, de um lado e de outro, e não consegue dormir. E imagino que vá ser assim ainda madrugada adentro, porque a febre, a cólera, o assanho desse tipo de coisa que ele fez não baixa cedo nem se acalma com maracujá.

Eis o que houve: Kinho, volante, acostumado a fincar os pés na boca da sua área, quebrou o protocolo e subiu longe, pra dentro da área inimiga. O jogo era contra o Vasco da Gama pela primeira fase da Copa do Brasil. E o placar era negativo: dois a zero para os cariocas. Com esses números, o Rio Branco saía da competição hoje ainda, 90 minutos depois de ter entrado.

Kinho está lá, na boca da área. São 35 do segundo. Ele olha, pede o couro, grita. Do lado esquerdo da cancha, Léo, companheiro de camisa, o vê e cede ao apelo, lançando a bola, alada, que vem devagar. Kinho estuda meter a cabeça na bola, mas sabe que está longe demais do gol. Pensa em matar no peito, colocar no chão e arrematar, mas lembra que é volante. Então, ele resolve não pensar. Deixa o próprio corpo decidir. E assim, como que dono da própria vontade, a perna direita de Kinho vai para trás, como o gatilho de um bacamarte, e volta vigoroso, violento, vivaz, e estoura o couro de primeira, antes que e abola tivesse chance de tocar a grama. Veloz feito centelha, ela percorre a área toda do Vasco da Gama, entra no cantinho e ofende toda e cada costura das redes guardadas por Martin Silva.

 

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Kinho acaba de emitir onze passagens para o Rio Janeiro. Ele e time inteiro do Rio Branco vão jogar no Maracanã. E vão ainda conservar a esperança do povo do Acre, de seguir em frente na Copa do Brasil, de eliminar da competição o Clube de Regatas Vasco da Gama, de fazer fama e dinheiro na cidade grande. E a cidade toda de Rio Branco vai esquecer da enchente por uns dias, vai descansar da dor e da tristeza pra sonhar com o júbilo e a farra.

Até os 35 minutos de jogo, o Estrelão estava sepultando o jogo de volta. Mas com um único golpe – notem que o gol alado de Kinho precisou de um único toque na bola, uma só pancada firme e decidida –, o volante chacoalhou a ventura e mudou fados inteiros.

A peregrinação que não ia acontecer, agora vai. O embate que não ia existir, agora vai.

E por isso, Kinho não dorme. Porque ele vai ao Maracanã. E vai levar uma porção de amigos com ele, penduradinhos no seu coração, deleitosos pelo tento bem-aventurado, eufóricos por levarem seu Futebol para o palco mais nobre desse mundo, lépidos por desfilarem na grama que inspirou Nelson Rodrigues e por onde se divertia um Garrincha de pernas tortas e riso fácil.

 

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