Finquem uma bandeira no gramado do Independência

O Atlético-MG já venceu de todas as formas no Horto. O que faltava era ter a ajuda da bandeirinha de escanteio

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De todos os aparatos que compõem o Futebol, nenhum é mais irrelevante do que a bandeirinha de escanteio. Notem que tudo tem uma participação efetiva no espetáculo, seja no campo ou nas arquibancadas. As chuteiras são a arma letal, o estádio é a masmorra do inimigo e até as tarjas de capitão assinalam as duas autoridades em campo. Mas a bandeirinha do corner é frívola. Quieta e reclusa, ela cumpre a rudimentar função de avisar os distraídos que ali, naquela esquina, termina o campo. E só.

Mas no Futebol, até quem vive de ser pequeno uma hora se agiganta.

E ontem, os roteiristas do Futebol, já cansados do mesmo enredo de sempre para o Clube Atlético Mineiro, calharam de elevar uma dessas miúdas bandeiras a protagonista da noite.

Eram 34 minutos da segunda etapa, o Galo vencia por um a zero e o desespero corria a galope pelas arquibancadas, rasgando unhas e torando almas, quando Rafael Carioca cruzou da intermediária para o miolo da área. A bola foi desviada pelo beque chileno e andou preguiçosamente até a esquina fatal, onde dorme a bandeira. E ficou ali, indecisa, sem saber bem pra que lado ir. Guilherme buscou o couro e o devolveu para o volante, que dominou, deixou a bola quicar e emendou um desses chutes embebidos em ódio e cólera, bola que nenhum jogador acerta duas vezes na vida.

O couro voou – segundo físicos de plantão, a 95 km/h – e encontrou o último quadrante das redes do arqueiro.

Furor e êxtase em Belo Horizonte.


Atletico x Colo Colo


Os jogadores do Galo correrem em direção à massa e, juntos, torcida e soldados, celebraram mais uma vez a derrota do impossível.

Enquanto isso, quieta e cabisbaixa, sacudida pelo vento do hálito quente da multidão, a bandeirinha de escanteio sorria sozinha, no seu silêncio de objeto, na sua mudez de pavilhão.

Era a celebração tímida de quem nunca viu um holofote na vida, nem conhece os prazeres da notoriedade.

Um final eufórico para o povão, mas melancólico para a peça que ajudou a escrever o resultado colossal.

É preciso, agora, que o Galo faça uma retratação à bandeira do Independência. Que alguém a busque ali, naquele cantinho perto de onde Victor virou santo, e a traga para o meio da cancha e a finque no chão com a convicção de um descobridor, posto que homem sério, quando conquista terra nova, marca o terreno com uma bandeira no chão.

E de hoje em diante, aquele estandarte, antes miúdo, vai ser imenso. E vai gritar em silêncio para o mundo inteiro ouvir que aquele campo tem dono, que aquele terreno é fértil, que ali mora um galo que não só é forte, mas, principalmente, é vingador.

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As fotos são do sempre sagaz Daniel Teobaldo, do Soulgalo

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