Feliz insônia

14 anos atrás, o Palmeiras abria 3 a zero no Vasco na final da Copa Mercosul. E só um homem acreditava na virada

romario_getty

 

E então, chegamos aos 14 anos daquela noite. Incúria do destino, por dias a decisão da Copa Mercosul não caía sobre a mesma data do título nacional de 97 frente ao mesmo Palmeiras. Como de hábito, sentei-me ao lado do meu avô. Àquela época, minha companhia que lhe era tão querida trazia, em si, uma necessidade material. Por força de um glaucoma, o Velho, como eu o chamava, não enxergava. O que não o impedia de sentar-se comigo e ouvir a narração da TV, acrescida dos detalhes que ele sempre me perguntava.

Foi um primeiro tempo aterrorizante. Se um gol palmeirense complicava as coisas, dois conferiam desnecessária dramaticidade. E três desferiam um golpe certeiro em minha fé. Desisti. Avisei que iria para o quarto. O Velho, tranquilo, consentiu. Só pediu que deixasse a TV ligada. “Vou continuar vendo o jogo”, disse-me. Questionei: “Vai ver mais um vice?”. A resposta: “Vou ver o Vasco.”

O chamado de meu avô corta o silêncio do quarto. Tínhamos um pênalti, ele dizia. Respondi que não veria. Amoroso, ele insistiu. Aquiesci. Em pé, ao seu lado, assisti Romário marcar o gol e, sem comemorar, levar a bola até o centro do gramado. O Velho me perguntou se eu ficaria. “Pra ver mais uma derrota?” ironizei. “Não, meu neto. Para ver o Vasco.” Neguei. Voltei ao quarto.

Nem 10 minutos e a saudosa voz me requisitava outra vez. Novo pênalti. Uma brasa de esperança dava indícios de que se pretendia um incêndio. Sem notar, sentei-me a seu lado. Ele profetiza: “É Romário? Vai fazer igual.” Dito e feito. Bola na rede, bola no meio. Eu, atordoado, olho pro Velho. “O Palmeiras ainda ganha.” Ele me encara e, sem me enxergar, retruca: “Não estou vendo o Palmeiras, garoto. Estou vendo o Vasco. Fica.”

 

romario_juninho

 

Fiquei. E pelo olhar cego de meu avô passei a enxergar, então, quem estava ali. Senti vergonha da minha descrença e adotei a postura que ele, silente, me pedia. Cada jogada, eu disputava. Cada chegada do Palmeiras, ajudava a tirar. E aos 40 minutos, narrei para ele o gol de Juninho Paulista. Pulei, gritei, chorei. Podíamos perder nos pênaltis. Mas eu já não ligava mais para o troféu. Ali estava o Vasco que meu avô me dizia ver. Valente, vibrante, enorme, gigante. E tanto eu chorava que não via mais nada. E foi ele quem abriu meus olhos mais uma vez, me despertando para o inacreditável gol de Romário.

Explodimos os dois. E naquele momento, enxergávamos a mesma coisa. O Vasco de Leônidas, Ademir, Danilo, Dinamite, de Edmundo, de Juninho, de Romário. O Vasco que vence preconceitos, que constrói estádio, que não se aceita pequeno. O Vasco que o Velho sempre enxergou. E que eu via ali, naquela virada heroica.

À beira da meia-noite, era impossível manter a lei do silêncio. O Rio urrava Vasco àquela altura. E eu não dormi naquela noite. Ou melhor, aquela noite é que nunca dormiu em mim.

Hoje já não tenho mais o olhar do Velho para sofrer comigo as adversidades do time. Talvez por isso minhas dúvidas tenham aumentado e minhas certezas diminuído. Quando eu vejo aquela camisa, porém, com a faixa diagonal atravessada na frente e a cruz-de-malta ao ritmo do coração, é inevitável. Eu fecho os meus olhos e abro os do Velho. E sinto sua presença eterna, enlaçando-me as mãos, a sussurrar em minha mente: “É o Vasco, garoto. Fica.”

E cá estou. À espera de ver-te novamente, Vasco. Até quando? Não importa. Sou neto obediente, Velho. Eu fico.

 

PRETÉRITO MAIS QUE PERFEITO: VASCO ELIMINA O FLAMENGO NO BRASILERÃO

 

Fotos de capa: Getty Images  |  Foto de apoio: Renato Pizzutto

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5 pronunciamentos sobre

Feliz insônia

  1. A maior partida de futebol que eu vi e verei em toda minha vida, foi ali que eu, com 10 anos de idade e vascaíno ainda tímido, virei um irremediavelmente apaixonado seguidor do Gigante de São Januário.

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