Entre disparadas e piruetas

Evandro, do Coritiba, ainda nem bem nasceu para o futebol e já experimentou o que ele tem de mais sublime

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Ainda não sabemos onde Evandro vai chegar nesse mundo de vicissitudes e metamorfoses que é o futebol. Pode ser que jogue a fina bola e tome de assalto o coração da torcida. Pode ser que jogue nada e seja negociado a preço de bala Zequinha com um clube da Série C do Amazonense. Mas seja qual for o destino do guri, feliz ou tétrico, é certo que ele já alcançou o momento mais sublime disso tudo.

Sim, porque Evandro nem bem nasceu para o futebol e já viu aquilo que há de mais assombroso numa cancha: o gol aos 45.

Vamos aos fatos.

Evandro não passa de um menino. Soma 18 anos de vida. Era, até um dia desses, jogador da base do Coritiba Foot Ball Club. Acontece que na segunda-feira passada, enquanto treinava com outros piás no CT da Graciosa, pensando em pouco mais que nada, foi chamado de lado e ouviu aquelas que devem ter sido as melhores palavras da sua vida até aqui: “faça as malas porque você vai pra Campinas”. Ele ia compor banco contra a Ponte Preta, pelo jogo de volta da Copa do Brasil.

Ora, quem conhece um miúdo de futebol sabe que compor banco é eufemismo pra não vai jogar. Assim, era claro que Evandro não estava exatamente nos planos de Ney Franco – fora lembrado porque o departamento médico do Coxa estava cheio como a ala de queimados do Cruz Vermelha em noite de ano novo.

Pois bem, o menino viajou. E chegando em Campinas viu, do banco, que a vida não é fácil. A Ponte abria dois a zero e diluía a vantagem do Coritiba, que havia vencido a primeira por 2 a 1. Faltavam 30 minutos para o fim e o time dele, jogando nada, precisava de um tento pra levar às penalidades. Foi quando Evandro foi convidado a subir ao prelo.

Ele tinha meia hora pra resolver uma pendência que gente mais velha e experimentada não tinha resolvido.

Foi para cancha e pegou pouco na bola. Mas eis que na última volta do cronômetro, quando o choro já subia pelos gorgomilos, o piá viu uma bola chegar da esquerda, pelo alto, e lançou a testa nela, fazendo estourar toda e cada costura das redes do Moisés Lucarelli. Era o tento de empate que levaria aos pênaltis e que dariam, mais tarde, a classificação ao Coxa.

Evandro tinha a mais penetrante estreia que se pode imaginar.

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Evandro, à esquerda, com outros piás do Couto

Mas por melhor que tivesse sido essa sua iniciação no mundo dos homens, o guri ainda não havia experimentado o furor de marcar um gol em casa, de ouvir a erupção medonha e estrondosa da sua torcida, de bater no peito vendo aquele auê e pensar, baixinho, que aquela festa toda só existe por causa dele.

Evandro estava, portanto, ainda há um gol da graça suprema.

E veio um novo treino no CT e com ele uma nova conversa na beira do gramado. E veio uma nova convocação. E veio o domingo, e veio o Corinthians num Couto Pereira tomado de almas cantantes e febris.

De novo, Evandro foi para o banco – mais uma vez ele seria acionado só se outros homens não dessem conta do desafio.

E foi exatamente o que houve. No segundo tempo, quando o Corinthians vencia por um a nenhum, Ney Franco chamou o menino à pugna.

E ele foi. E ouviu a cólera da torcida, inflexível com mais uma derrota em casa. E viu a bola chegar quadrada e viu a zaga cortar uma, duas, três. E viu o cronômetro voraz e apressado. E viu a última volta do relógio. Mas viu também, no meio do padecimento todo, Negueba surgir da direita, lançar Rafhael Lucas dentro da área e viu Rafhael Lucas erguer a cabeça e olhar para o miolo, e viu a bola chegar rasteira, e deitou e empurrou pra dentro, pra cima, quase pra fora. E viu as redes estufarem. E aí não viu mais nada.

Só ouviu. Ouviu o estouro da manada, a libertação de 20 mil torcedores em desespero, o estampido deleitoso daquela gente apinhada, que só sabe berrar e abraçar e celebrar. Ouviu, enfim, o alvoroço irrefreável e inconfundível de um gol aos 45 do segundo.

E Evandro foi para o povão como quem queria conferir se aquilo tudo era mesmo verdade, se aquela festa toda havia nascido dos seus pés, se o arrebatamento de toda aquela gente nascia mesmo através do menino de Messias, cidadezinha de Alagoas.

E houve, então, o mais ensurdecedor silêncio. E tudo ficou de ponta cabeça: o campo, a torcida, a lógica. Era Evandro no ar, virando pirueta, tirando o peso do corpo e se mostrando ser feito de matéria alguma.

 

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Fotos: Divulgação / Coritiba

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