El abrazo del alma

O retrato mais bonito do futebol acaba de completar 37 anos

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Víctor Dell’Aquilla é de La Boca. Um Xeneize puro sangue. Vive pelos arredores de La Bombonera, camisa azul, faixa amarela no peito. Torce, mas não como torcem os outros.

Não sacode bandeiras pelo ar, não desenrola pavilhões, não bate palmas – Víctor não tem os dois braços.

Aos 12 anos, levou um choque de alta tensão. Pra sobreviver, teve de fazer um sacrifício. “Perguntei ao médico por que me deixou viver se era pra ficar daquele jeito”, ele conta.

Com o tempo, Dell’Avilla foi aceitando as ironias da vida. E em 1978, quando a Copa do Mundo era jogada na Argentina pela primeira vez, ele recebeu mais uma botinada: a final soberba entre Argentina e Holanda seria disputada no Monumental de Nuñez, casa do River Plate.

Víctor engoliu o orgulho e foi ao campo, como não poderia deixar de ir. Queria ver a poesia de Kempes e a classe de Passarela. Chegou cedo, pegou lugar bem em frente do alambrado e viu tudinho – o gol de Mário Kempes, o empate do Nanninga, a bola na trave de Resembrink, a prorrogação, a consagração de Bertoni, a coroa na cabeça da multidão, o êxtase argentino.

Monumental em cólera, abraços em profusão e Víctor ali, vendo tudo, sentindo tudo. Entre gritos e piruetas, ele percebe que até os seguranças se deleitam com o gol. Então, dribla as grades e desce até a grama – a sempre detestada, mas agora sagrada, grama do Monumental de Nuñez.

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Sergio Gonella olha para o cronômetro, percebe que o tempo combinado já esgotou e apita pela última vez. O estádio vem abaixo. Os jogadores, em cancha, caem feito sacos de batata, não sabendo se comemoram o feito abissal ou se descansam da batalha terrível travada contra os holandeses.

Víctor sai em disparada.

70 mil pessoas vivem um carnaval embevecido nas arquibancadas e o mundo, de repente, parece rodar em câmera lenta. Galego abraça Ortiz. Luque ergue as mãos para os céus. Locutores gritam até o pulmão afrouxar.

Enquanto isso, Víctor corre.

Fillol cai no chão ajoelhado.

E Víctor corre.

Tarantini vê Fillol combalido e vai para cima dele, cair num abraço singelo e comovente.

E Víctor corre.

Tarantini cai aos joelhos e se derrama feito suor no corpo de Fillol.

E Víctor corre.

A 50 metros dali, Ricardo Alfieri vê tudo. E aponta uma teleobjetiva para o quadro.

Víctor desacelera. Já está perto dos dois fidalgos argentinos, heróis nacionais, que a essa altura já se parecem um, tão bela a fusão dos seus corpos.

As mangas vazias da blusa de Víctor se projetam para a frente quando ele diminui a passada – parece que, mesmo sem braços, ele corre para dar também a sua parcela de abraço àquela moldura.

É nesse instante, nesse mágico e perfeito instante, que Alfieri aperta o gatilho da sua câmera.

É o retrato mais puro e emblemático da história do futebol. É o que, no dia seguinte, o El Gráfico batizaria como El abrazo del alma.

 

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Foto de capa: Ricardo Alfieri

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