É noite no Beira-Rio

O apagão no gigante de Porto Alegre era o que faltava para fazer de Internacional vs Coritiba um jogo épico deste Brasileirão

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Aos 34 minutos do segundo tempo, quando o Coritiba partia para dentro da área grande do Internacional a fim de abrandar o prejuízo, que a esta altura já era de 4 a 2, os refletores do Beira-Rio escureceram. Onde havia um jogo de futebol passou a existir uma mancha preta, uma névoa escura e densa, vazia de tudo. Aos poucos, no meio daquele piche, telefones celulares começaram a ser sacados dos bolsos dos arquibaldos e erguidos ao alto, como se fossem pequenos troféus – cada torcedor antecipava o gesto que querem ver repetido por D’Alessandro em dezembro.

O estádio piscava e reluzia feito um vaga-lume atiçado a pilhas.

Os penachos vermelhos do Padre Cacique, então, foram também se acendendo, ainda com o campo escuro. No meio daquela escuridão nascia, benevolente e ruidoso, um vermelho que ia preenchendo as plumas brancas e formando um clarão de luz generoso e abundante.

O escuro, de súbito, era quebrado por uma afirmação vermelha, nervosa, que rompia os céus de Porto Alegre e entoava pelo cantos da cidade que ali vive um estádio com alma, um apache vigoroso que não desmancha com setas inflamadas.

Os jogadores em campo, que vivem de patrocinar o espetáculo, agora eram plateia. E olhavam atônitos, percebendo correr na própria espinha dorsal o arrepio distinto que eles tantas tanto provocam mas quase nunca sentem.

O Beiro-Rio, puro concreto, de repente tinha vida própria – era pura ternura.

Era o que faltava para este Internacional vs Coritiba ganhar a rara etiqueta de épico nos almanaques do Campeonato Brasileiro.

 

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Foi, afinal de contas, ao longo dos 90 minutos de clarão e 16 de obscuridade, um embate gigante, entre duas equipes que se lançaram à vitória desde o descortinar do jogo, sem os visitantes mostrarem aquele acadelar corriqueiro que costuma abater escretes que vão até a fortaleza do Beira-Rio.

Nos primeiros 45 minutos de jogo foram 26 finalizações a gol, 13 de cada lado, com 3 acertos do Inter e um do Coxa. Isto é, a cada dois minutos uma metade do campo era ofendida pelo inimigo, criando um alvoroçado roer de unhas de um lado e um deleitoso ensaiar de gritos, pulos e abraços do outro.

O intervalo chegou e a torcida descobriu, enfim, que poderia sentar naquelas arquibancadas sem a iminente necessidade de se pôr de pé outra vez, fosse para vibrar ou para sofrer.

Na volta ao campo, o Coritiba regressou ainda mais disposto a fazer alguma arte com os já certos três pontos do Internacional, jogando com a coragem que até então havia faltado nos outros 12 compromissos fora de casa. E em pouco tempo o time verde já havia arrebentado duas bolas na trave, promovendo incontáveis taquicardias e sobressaltos no peito gaúcho.

E eis que veio o estouro de redes que traria ainda mais gracejo ao jogo: o Coritiba diminuía para 3 a 2, sonegando paz aos torcedores gaudérios e salpicando esperança pelas arquibancadas verdes. Mas o escrete de Abel Braga, como quem gosta do fogo mas não quer chegar tão perto assim por conhecer as mazelas da labareda que lambe a pele, logo aumentou outra vez: 4 a 2.

Houve, então, no meio daquele frenesi todo, daquele lançar desesperado de camisas verdes contra a área vermelha, o afamado apagão, trazendo a impressão de que estávamos no mais sórdido jogo de Libertadores da América, quando o atacado usa até dos golpes mais vis para manter sua cidadela de pé. E vieram os telefones e subiram os penachos e houve magia. E então, fartos de tanta beleza, os refletores voltaram para iluminar mais 7 ou 8 minutos de uma partida sublime e pujante do mais genuíno Futebol.

 

RELEMBRE A INAUGURAÇÃO DO BEIRA-RIO

 

Fotos: Globoesporte.com

 

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