Domingo é dia de Maracanazo

De um jeito ou de outro, a final da Copa do Mundo acabará em choro. Resta saber se será argentino ou brasileiro

messi_caindo

Sempre fui avesso às comparações com o Maracanazo porque penso – ou pensava – que jamais haverá outro dia como aquele.

Mas diante desse quadro terrível que nos impõe o sempre zombeteiro destino, que nos coloca para jogar uma humilhante disputa pelo terceiro lugar enquanto eleva a Argentina à final da Copa do Mundo no Brasil, me permito a associação.

De certa forma, cá estamos todos nós de novo às voltas com o Maracanazo.

1950 foi pior, é verdade. Ou, ao menos, tem mais prestígio nas nossas memórias doídas. A desilusão de 2014 ainda parece muito recente para merecer o título de tragédia.

Mas vamos encarar assim, por um momento.

O Maracanazo, revisto e revisado, vai acontecer. Favas contadas. Só o que não sabemos, por ora, é quem vai chorá-lo: nós, brasileiros, ou eles, argentinos. O fato indomável é que de um lado ou do outro do Iguaçu nascerá um Maracanazo.

O deles, é evidente. Basta que caiam diante da Alemanha que Dios deixará ser Argentino.

Nada de muito humilhante perder uma final de Copa do Mundo, é verdade. Mas para eles, deixar de ganhar no Brasil e nos rir isso na cara, com dentes em riste, é por si só um pecado abissal.

O problema, para eles, não estará tanto na derrota, mas na ausência da vitória. Deixar de vencer será desperdiçar o maior troféu sobre o qual um argentino poderia lançar mão.

Se eles vencerem, no entanto, o Maracanazo cairá inapelavelmente do lado de cá da fronteira.

E o nosso peito, já aberto e incicatrizável como o de um hemofílico, vai ser dilacerado por uma verdade acintosa: eles terão sido campeões no Maracanã; nós, não.

Os argentinos, que desconhecem qualquer sombra de misericórdia, vão usar estes espólios de guerra contra nós até o fim dos tempos. Nossos bisnetos ouvirão, abismados, versos mais ofensivos do que Brasil, decime que se siente e perguntarão aos almanaques por que raios a nossa geração não fez nada para impedi-los.

Eles, levantando aquela tacinha aqui, na nossa casa, desfilando depois por Copacabana, despojando nossas mulheres em meio ao champagne que desce pelas cabeças dos campeões, será tétrico. Uma tribulação aterradora. Uma vergonha lúgubre. Uma história que será rida com o mais constante sarcasmo nos nossos ouvidos na beira da cama, que é lugar de choro.

Lá ou cá, nosso ou deles, o fato é, senhores, que o Maracanazo já chegou ao Brasil. Nos resta saber se ela vai ficar por aqui mesmo, cujas ruas e becos ele já conhece, ou se vai rumar para a Argentina.

 

Foto: AFP Photo / Adrian Dennis

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