Dois minutos com Branco

Como um telefonema no meio da madrugada me colocou perto de um dos personagens da Seleção de 1994

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É madrugada. O telefone – visita estranha a essa hora – toca.

Atendo. É um amigo antigo, Rodolfo Amaral.

Pelo grito esganiçado e sibilante, imagino que alguma coisa séria tenha acontecido. É tarde demais pra um telefonema frívolo.

Peço que se acalme, que diga com vagar o que quer.

Ele toma fôlego e repete, ainda em êxtase, mas mais pausado, que está com Branco.

Demoro a entender. Não temos nenhum Branco entre nós, entre os camaradas.

Indago quem é Branco e ele logo explica que não teríamos sido campeões não fosse a válvula da bola.

Por aproximação, imagino que Branco seja Cláudio Leal, o lateral esquerdo de 1994, mas logo desisto da ideia – não faz qualquer sentido.

O amigo do outro lado se acalma e diz, de forma quase clara, que está com Branco, aquele, e que traz novas e que queria, antes e acima de tudo, que eu estivesse lá.

Peço cadência e ele respira.

Toma fôlego e me explica melhor: num encontro fortuito, acabou caindo na mesa de Branco, o próprio, num jantar em Foz do Iguaçu.

“Cerveja, vinho e boas histórias”, ele me diz.

Quando eu entendo sobre quem falamos, enfim, o êxtase muda de lado e passa a ser meu. Branco tem uma história importante na minha vida, como tem na de todos nós.

Eu, cativado, disparo perguntas, mas o amigo do outro lado da linha se atropela – quer resumir duas horas de conversa e esbórnia em 10 segundos de telefonema.

“A ligação é cara”, ele diz, justificando a pressa. “Você tinha que estar aqui, Velho, não é possível.”

Antes que eu faça uma pergunta, Rodolfo passa o telefone para outro amigo que está lá também, como se alguém precisasse confirmar a fábula. É Diego Fernandes, que também atende sôfrego, querendo contar a terceira história antes de concluir a primeira.

Ele me conta que devemos 1994 à válvula da bola e que Éder inspirou o chute contra a Holanda.

“Velho, você precisava ouvir. Branco disse que o chute saía daquele jeito porque ele virava a válvula de ar da bola para ele próprio – era o alvo – e que depois lançava os três últimos dedos do pé esquerdo em cima dela, como quem vai encher a bola, não de ar mas de ódio. E que quando o pé entrava de jeito, a bola respondia assobiando diferente, feito zumbido de abelha.”

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A inspiração em Éder, a válvula virada para Branco, o assobio – depois, o êxtase.

Eu ouço, ainda atônito, e ele segue.

“Pode ver, veja o vídeo aí. O Branco mandou ver. Perceba como ele sai comemorando antes, certo de que a bola vai entrar. E sabe por que, Velho? É porque ele ouviu o assobio! É porque ele ouviu o assobio!”

Eu fecho os olhos e enquanto ele fala e lembro da cena. Lembro do chute de Branco, lembro do Romário se fazendo serpente para o couro passar, lembro da celebração ensandecida, dedo em riste, apontando para o banco de reservas.

Diego segue, afoito, dizendo que eu tinha de estar lá, que Branco é como um de nós, calça jeans, camisa qualquer. “Cabelinho de gente séria”, brada. E prossegue dizendo o telefonema é caro e que nos falamos depois, num dia qualquer, quando ele estiver em Curitiba.

Antes que eu me dispense direito, o telefone fica mudo.

E eu fico ali, sozinho, pensando em tudo aquilo, melancólico por não estar ali naquela hora, mas feliz feito cadela com osso na boca por me lembrar de 1994, tempo em que guardávamos Cafu, Ronaldo e Muller no banco de suplência e usávamos Jorginho, Bebeto, Romário nas canchas americanas.

Coloco o telefone no gancho, confuso com tudo, e penso em Branco. No que ele fez. Em como ele fez.

Penso no fotógrafo, penso na falta que Branco fez primeiro em Overmars antes de sofrer a entrada que causaria todo o telefonema de hoje, penso na bola beijando o pé da trave e como que pedindo a bênção para entrar.

E assim, sorrio contente, valorizando aquilo que um dia foi a Seleção, o milagre que aquela camisa já operou, as chuteiras que um dia foram pretas, os cabelos que certa feita foram ordinários.

Tempo bom que, pelo jeito, não volta mais.

 

 

Foto: Action Images

 

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