Desembarque em Porto Príncipe

Um conto pelos 11 anos de um dos episódios mais sublimes da história do futebol

haiti_brabat_minustah

 

– Zwazo, Zwazo! Acorde!

Era assim, Zwazo, pequeno passarinho, que o irmão mais velho chamava o mais novo.

Acorde! Os tanques estão nas ruas!

O menino levantou num só salto e se pôs no chão, com as mãos na cabeça. Pura fobia.

Nem respirou, nem pegou roupa, nem vestiu chinelo. Saíram pelas ruas, de mãos dadas, caindo no frenesi imenso que acometia Porto Príncipe.

Zwazo não entendia nada, mas a confiança cega o fazia se deixar levar pelo irmão.

Corpos esguios driblando a multidão, ganhando terreno. À medida que iam andando, o povo se fazia mais denso a ponto de impedir o avanço dos dois. E certa feita o aperto foi tanto que Zwazo sentiu a mão do irmão escapar. E de repente, o menino era todo solidão em meio a uma mar de gente.

Assustado, o piá berrou, buscou nas mãos de estranhos a mão do irmão, mas nada. Esmoreceu. E foi com a multidão, que o carregava à força, como um corpo sem vontade, levado ao sabor da massa e do vento.

Cheiro de óleo diesel. Zumbido de aço encontrando ferro. Gritos, súplicas. E abriu-se diante do menino um clarão – aquela gente o tinha empurrado para o meio rua por onde passavam tanques de guerra.

Zwazo congelou. O frio e a febre correram seu corpo magro. Olhos arregalados, mãos geladas e boca trêmula, fazendo um bico que ele não conseguia conter – era o retrato do medo.

O menino olhou para os soldados, mas não viu armas. Fitou as mãos deles mas só viu acenos. Notou que as fardas não eram de guerra, mas amarelas. E entendeu, enfim, que a violência, naquele dia, havia sido brecada por uns moços de bem, uma gente feliz e acolhedora.

Viu um careca de dentes separados, viu um cabeludo de boca imensa. Lembrou que conhecia aqueles moços da televisão.

E estourou no peito de Zwazo uma alegria que ele ainda não conhecia. E ele correu como nunca tinha corrido antes, acompanhando os tanques, celebrando uma graça inédita, um entusiasmo novo, um afeto insólito.

O friozinho na barriga, por uns minutinhos, não era de fome – era de alegria, da mais imaculada alegria.

O piá empunhou uma sacola plástica do chão, de supermercado, amarelinha, escorreu o lixo que tinha dentro e hasteou sua própria bandeira, sacudindo a felicidade e irradiando o orgulho de uma cor que agora era dele.

A multidão gritava num êxtase tal que o som dos tanques e o barulho do ferro ia dissipando até que tudo fosse graça e gozo e nada mais.

Aos poucos, tudo foi desacelerando – os tanques, Zwazo, a plateia. Chegavam ao estádio onde o jogo se daria dali a pouco.

Inofensivo como todo guri novo, ele pensou que entraria na cancha e que teria mais uma ou duas horas daquele arrebatamento, mas não. Foi impedido por homens que exigiam dinheiro ou comida em troca da entrada.

O guri, então, se fez triste e cabisbaixo. Se achegou do portão do estádio e mirou pelo vão, como a gente faz com a vida, esperando ver um naco de uma magia que ele só conhecia pela televisão.

Viu um pedacinho de gramado verde e sorriu, sabendo que cada pedacinho de camisa canarinho que passasse por ali compensaria irremediavelmente os anos de miséria e amargor.

Zwazo via a vida pela fechadura.

 

***

 

Hoje, o Desembarque em Porto Príncipe – um dos capítulos mais bonitos da história do futebol –, completa 11 anos. A história de Zwazo não existiu, mas poderia ter existido. É ficção, mas é futebol. E todo futebol é verdade.

Dê play no vídeo e entenda a comoção desse povo.

 

 

PartilheTweet about this on TwitterShare on Facebook

3 pronunciamentos sobre

Desembarque em Porto Príncipe

  1. Pois é. Ótimo texto e o vídeo é pra deixar qualquer um sem palavras.

    Apesar de toda máfia e absurdos da CBF(mesmo nos tempos de outrora), o futebol brasileiro, a camisa do BRASIL emociona como nenhuma outra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *