Colecionador de desventuras

A dura história do goleirinho cujas mãos nunca alcançavam nada

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Virgílio nunca foi um bom goleiro. Mas era ainda pior na linha, fato que o fez ser empurrado pelos companheiros de bola até a última risca do campo. Que jogasse no gol, o infeliz, porque assim atrapalhava menos.

Até pra mulher, Jandira, Virgílio era a cara do fracasso. Ele chegava em casa e ela, fazendo bolo, só levantava as sobrancelhas, como quem pergunta o óbvio. E o marido, ombros baixos, respondia com a mão – às vezes com as duas – quantos gols tomara.

Mas calhou que um dia tudo foi diferente. O arqueiro, como que por acaso, fez uma partida irretocável: passou a tramela no gol e manteve o placar em um inédito 0 a 0.

O povo, no alambrado da canchinha, não entendeu nada. E foi um cochicho só. Uns diziam que era milagre do nosso Senhor, outros gritavam que era o coiso ruim que tinha tomado o corpo do menino pra jogar o que ninguém nunca tinha jogado.

Seja de quem for a obra, o que interessa é o que sucede agora: naquele dia, veja a coincidência, passava pelo campo um olheiro do time grande da cidade vizinha. E o velho, vendo aquele malabarismo todo, se afeiçoou a Virgílio e se pôs decidido a carregá-lo pra sua terra – na domingo tinha jogo contra o Jardim Sabará, e o goleiro titular tinha o dedo quebrado.

“Me tragam o guri que ele vem comigo”, disse o homem de farto bigode branco com a jurisdição de quem manda mais que o prefeito.

E Virgílio foi, sem entender nada.

Nem tempo de treinar teve.

Chegou no time grande e logo ganhou uniforme e chuteira e, quando deu por conta, estava entrando no Estádio Municipal de Araruna com a 1 nas costas.

Virgílio era todo pânico. Sabia que não tinha futebol pra brecar bola alguma. Bastava um chute, fraco que fosse, para a sua farsa particular virar pública.

Pois começa o jogo e a bola fica presa na meia cancha. Não passa dos zagueiros e, quando escapa, é pro lado de lá. Mas cair no gol, não cai. O placar segue invicto.

Vem o intervalo e o goleiro, todo ofegante – mais de nervoso do que pelo jogo em si –, vai sondar o dedo do cidadão, pra ver se Deus não mandou logo a cura que ele pedia. E nada: o dedo seguia torto feito andar de bêbadoe Vergílio tinha que seguir debaixo do arco.

O time volta a campo e tudo continua mais ou menos igual: bola presa no meio de campo ou, quando se atreve a chegar, passa longe do gol.

Lá vai Virgílio, pernas trêmulas e garganta seca, bater o tiro de meta.

E é num desses tiros de retorno que sucede o estrago. Virgílio bate no pé do seu zagueiro, que é logo acossado pelo rival e se vê obrigado a devolver a bola pro goleiro.

É um recuo. Mas pro nosso pobre herói é um chute, e dos violentos.

A bola vem disforme, pingando pelas ervas daninhas e não encontra pé nenhum pelo caminho – vê logo a rede, que mal balança de tão fraca que lhe chega a bola. É o mais infantil dos frangos, logo na primeira vez que bola aparece, justo no finzinho do jogo. E a cidadezinha, toda pendurada no alambrado, vem abaixo, babando cólera e cuspindo ira.

O nosso goleiro, réu maior da tragédia, é arremessado pra fora do campo e vem, no seu lugar, o moço do dedo quebrado, que é melhor um coxo da mão do que aquele arqueirinho de araque.

Virgílio esconde a cara dentro do boné. Deixa só uma lacuna pros olhos verem, porque só o que lhe resta agora é achar o caminho de casa.

Cabeça baixa e triste, ele caminha de uma cidadezinha até a outra, pensando nas malvadezas da vida. Joga as luvas longe porque memória daquele dia não quer mais.

Chega, então, no portão de casa. E o nosso goleiro vê o único homenzinho que lhe traria um pedaço de redenção. O filho, guri de 3 ou 4 anos, lhe espera de braços abertos, sentado na mureta, doidinho pra oferecer um abraço e consolar o velho.

Para o menino, não faz diferença se o pai é bom ou mau goleiro, se venceu ou perdeu a batalha – ele quer só ser alento.

Virgílio abre os braços pro guri e sorri um riso raso, esperando aquele corpinho carregado de amor e ternura. E eis que o menino salta, todo confiante, mas o nosso goleiro oscila – pensa na bola, no jogo, no fracasso que é inteiro – e vê o guri lhe passar lotado pelas mãos e ir, pesado e acachapante, direto pro chão, num frango irrefutável, sem torcida mas com o som de mil Maracanãs.

Nosso goleiro junta o guri do chão e choram os dois, ali no miudinho um do outro.

Um sofre de dor, o outro padece de tristura.

 

Foto de capa: Futebol Traipuense, sem crédito

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