Brasileirão, o prelúdio

O maior campeonato do país ainda está no nascedouro, mas já dá pra entender algumas coisas

robson_ventura_folhapress

 

O Brasileirão ainda está engatinhando, passeando pelas nossas tardes e noites como aquela criança que ainda não anda mas já mostra as intenções mais rasteiras de virar a casa do avesso.

Os senhores dirão que ainda é cedo pra qualquer tipo de análise e eu concordo em todas as instâncias. Mas enquanto o caldo não entorna, vamos dar uma olhada naquilo que o Nacionalzão aprontou até aqui, e naquilo que ele está tramando nos bastidores. Não podemos cantar o futuro do jogo – embora tudo já esteja asseverado entre os roteiristas do futebol, que já costuraram todas as barbáries, só ainda não nos contaram – mas, mesmo cedo, já dá pra entender algumas coisas do campeonato que se desenha.

E de todas as coisas paridas até aqui, há algumas que merecem nossa atenção. Vamos a elas.

 

Santa Cruz jogando fácil

Nem quem viu o Santa Cruz gabaritar a Série C em 2013 esperava que o ano da graça de 2016 fosse tão doce para os pernambucanos. Nenhuma relação de favoritos – sempre uma incongruência preparar uma lista dessas – tinha o escrete coral como uma das cabeças do certame. Acontece que Grafite está jogando a fina bola, e Milton Mendes, que não foi bom o suficiente para o Atlético-PR, está sacando coelhos e outros bichos cabeludos de dentro da cartola, surpreendendo Levir Culpi, Wagner Mancini, Paulo Bento e outros nomes de quilate.

É claro que não se pode dizer se esse escrete vai realmente longe ou se morre cedo, na primeira curva, mas é certo dizer que o Santa Cruz não é mignon nem patinho – é carne de pescoço pra qualquer um que tentar pular os muros do Mundão do Arruda.

 

Gaúchos por cima

Hoje, Porto Alegre amanheceu sob a dócil e cortês tranquilidade. Gremistas e colorados, sempre afiando as esporas no asfalto, dessa vez deixaram as botas em casa e foram para a labuta descalços, sem medo de apanhar nem coragem pra bater. Está todo mundo satisfeito com ar rarefeito da tabela. São 10 pontos em 12 disputados. Isto é, nesse começo de Brasileirão, a pior notícia que a dupla Grenal recebeu foi um empate. No mais, tudo foi prazer e devassidão.

O feito estabelecido pelo Inter ontem foi hercúleo. Derrubou quase 11 meses de invencibilidade do Santos dentro da Vila Belmiro. Fazia 29 jogos o Peixe não sucumbia em casa. E atentem para a fina ironia: a última derrota havia sido justamente para o Grêmio.

Pois bem, onde os dois gaúchos vão chegar é um papo demorado, desses que se tem no bar, na companhia de amigos e fartas garrafas de aguardente, mas sabemos que são duas camisas pesadas, que descarrilar gavetas. Não será surpresa pra nenhum vivente se chegarmos na última volta do certame e os dois estiverem brigando pelo topo do mundo. E aí, claro, não vai ter um só gaúcho descalço.

 

Povão em falta

Passamos o ano todo esperando o Brasileirão voltar, fazendo planos e tecendo sonhos. E aí, quando ele chega, arrasta meros 10 mil torcedores por jogo. A média, que já é pífia, fica com ares de piada de mau gosto quando analisamos de perto.

Vejamos.

O Santos, invicto em casa há quase 11 meses, levou pouco mais de 4 mil testemunhas para o jogo contra o Internacional num domingo. E, como o Peixe, diversos outros clubes têm feito feio na arquibancada.

A média de público dos cariocas, sem o Maracanã, é jocosa. São 5 mil torcedores por jogo do Flamengo, 4 mil do Botafogo e 2.5 mil do Fluminense. Uma vergonha de proporções bíblicas.

 

Sport e Cruzeiro no atoleiro

O Sport vive o completo contrário dos seus conterrâneos. De uns anos pra cá, os rubro-negros se acostumaram a Brasileirões dignos e ferrenhos. Vencer o Sport era duríssimo, deitar Magrão era desafio hercúleo e sair da Ilha do Retiro com meio sorriso no rosto era raro como um selo olho de boi. Mas pelo início desse Brasileirão, quem parece se adonar da coroa em Pernambuco é mesmo o Santa Cruz.

Em Minas, o Cruzeiro está ajudando o futebol mineiro a ter o seu pior início de Nacionalzão desde que tudo é medido na pressa dos pontos corridos. O time de Paulo Bento ganhou, até aqui, míseros dois pontinhos em 12 disputados: dois empates em casa, um contra o América-MG, outro contra o Figueirense, e duas derrotas no além-mar, sendo uma de farta goleada.

Ora, ninguém com um naco de maturidade dirá que a camisa celeste é candidata ao cadafalso, mas cabe um pouco de juízo aos moços mineiros. O que se vê até aqui é um onze sem qualquer entusiasmo, um time sem grande organização tática. O tempo deve fechar as feridas e devolver o Cruzeiro a um lugar mais nobre na tabela, embora não se deva alimentar sonhos com aquele tempo risonho de Marcelo Oliveira – ele, agora, veste a camisa do Galo.

Vamos, pois, aos próximos capítulos deste Brasileirão, que promete ser farto. Que o povão perca o medo do frio e caia nas arquibancadas, posto que já estamos fartos de ver a cor do cimento.

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