Brasileirão, a última semana

Chegamos à última volta do nosso maior campeonato. E o que fica, agora, é aflição e saudade

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Pois eis que enfim chegou aquilo que temíamos.

Cá estamos, copiosos e agonizantes, diante da última semana de Brasileirão.

É a semana fatal. Aquela que nós sabíamos que chegaria, mas que agora custamos a crer que esteja realmente aqui, de foice na mão, pronta pra nos ceifar o maior campeonato de futebol que temos.

Mas é isso mesmo, amigos. Temos mais uns dias deste deleite e depois sobrará a dor e a saudade. E seremos só carcaças de nós mesmos, corpos vazios vagando por aí, entre a labuta e a folga, esperando o ano que vem, o ano da graça do Campeonato Brasileiro de 2016.

Acontece que essa certeza do fim do certame não é nem de longe a única aflição a fazer morada no peito da nossa gente. Há ainda milhões de torcedores vivendo uma angústia muito mais sisuda do que essa: a incerteza do que o ano que vem vai trazer.

Dos 20 concorrentes iniciais do campeonato, 13 já vivem a mais saborosa folga. E 7 camisas ainda disputam alguma coisa, uns mais acima e outros tantos mais abaixo, onde o fogo arde e marca a alma.

Na calmaria do topo da tabela, São Paulo e Internacional travam um duelo pela última vaga para a Libertadores da América. Os paulistas têm vantagem, mas pegam pela frente um inimigo lá de baixo, o Goiás, que joga a vida pra não sucumbir.

Mas é longe dali, nos porões desta tábua sórdida de destinos, que a tragédia se aninha: restam ainda 3 vagas escancaradas para a Segundona. E há 5 times tentando fugir dela.

E é para estes miseráveis que a semana promete ser peçonhenta, longa como se fosse feita de 7 segundas-feiras.

Dos condenados à aflição, os coxas-brancas – quem diria, depois de meio campeonato na zona da vergonha – terão a semana mais leve.

Um empate em casa basta para que o fim de ano seja doce no Alto da Glória. O time não joga exatamente bem, é verdade, mas vem de uma sequência afortunada de 3 vitórias seguidas. Pachequinho, o comandante do escrete, perdeu um único jogo desde que assumiu, justo para o campeão, em Itaquera, com um gol aos 42 do segundo. O aproveitamento dele é de abissais 75% à frente do Coxa.

 

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Já a semana dos torcedores do Avaí e Figueirense será bem mais espinhosa do que isso.

O Leão da Ilha tem um ponto a mais, mas um adversário mais duro pela frente: o Corinthians, em São Paulo. O Figueirense, atrás na tábua, tem vida aparentemente mais fácil: o Fluminense, em Santa Catarina.

Como os jogos serão todos simultâneos no domingo – o último domingo, me dói lembrar – os dois catarinenses travarão um clássicos à distância, abastecido pelos radinhos de pilha, que ficarão trazendo informação de um campo e de outro, jogando combustível numa fogueira já imensa, que pode até levar os dois à morte, juntos, como acontece nas grandes tragédias. Florianópolis será dividida salomonicamente em duas, e cada metade tomará suas aflições no colo, chorando secretamente pelo becos da cidade e uivando de uma dor que eles nem sabem se vão sentir.

Mas a vida da dupla catarinense é branda se comparada ao que vivem os torcedores do Goiás e do Vasco da Gama.

A estes dois desafortunados não basta vencer, como não vai resolver também torcer por um resultado – será preciso contar com um alinhamento de planetas, um acidente da tabela que faça outros dois times caírem abaixo deles.

Em situações mais normais, diríamos todos que ambos já estão soterrados. Mas não convém desprezar o que o Fluminense fez em 2009, quando levantou da própria cova no meio do sepultamento, nem mesmo cabe ignorar o esforço hercúleo que o próprio Vasco da Gama anda fazendo neste Brasileirão, quando também levantou de um coma profundo, fazendo ateu sonhar com Deus.

Assim, então, podemos dizer que cruzmaltinos e esmeraldinos ainda estão inteiramente vivos apesar de completamente mortos. O futebol não explica essas coisas, mas devemos respeitar as vontades dos roteiristas da bola, as figuras mais irônicas que já viveram, com folga.

Seja como for, à espera de um milagre ou de um mero empate, o fato cristalino é que estamos todos numa ressaca prévia, velando o fim daquilo que amamos. E aqui, no meio deste abatimento, o destino guarda aflições maiores para uns do que para os outros.

Que seja, então, uma boa despedida. E que estejamos, ainda que ébrios, vivos nos estádios e nas televisões, sorvendo a última gota de Brasileirão neste próximo domingo.

Será imenso, como sempre é.

 

Foto de capa: Site oficial do Cruzeiro  |  Foto de apoio: Site oficial da Chapecoense

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Um pronunciamento sobre

Brasileirão, a última semana

  1. Vasco e Goiás são, no momento, os gatos de Schrodinger do Brasileirão. Até que a caixa seja aberta às 19h de domingo, estão ambos vivos e mortos ao mesmo tempo.

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