Arroz, feijão, caviar e outras iguarias

A esperança no que vimos nesta Seleção vai muito além do futebol

ueslei_marcelino

 

Quando a Seleção Brasileira despontou no túnel da Fonte Nova, ontem, trouxe junto com a impávida camisa amarela uma dose cavalar de sobriedade.

Era algo diametralmente oposto ao que nos acostumamos a ver nestes dias burlescos e coloridos, onde tudo – de chuteiras a penteados – parece querer gritar sempre mais alto do que convém.

Aquele onze, que subia do vestiário, vinha sem um único cabelinho pintado nem um mísero corte de cabelo inspirado em esquilos, gambás ou outros animais de pelúcia.

Ao contrário, aqueles garotos eram a figura da humildade. Pareciam meninos saídos de um campinho do aterro do Flamengo: gente séria, corpos magros e esguios, cabeças raspadas na lâmina, dentes escondidos atrás dos beiços.

Era uma ode silenciosa à origem da nossa gente, ao povo que se alimenta de prato feito e que nem imagina o que é caviar.

No hino nacional, a mesma austeridade. Ninguém cantou naqueles arroubos de outrora, banhando o campo em lágrimas, denotando um desequilíbrio perigoso demais pra quem está a 5 metros do inimigo. Ontem, os guris cantaram como cantam os homens.

E a sisudez dos nossos moços prosseguiu cancha adentro, pelo jogo de bola. Não que precisasse, porque dentro de campo não há censura para o folguedo nem represália ao riso largo, mas aqueles moços talvez quisessem dividir conosco uma atitude nova, a circunspeção devida a um jogo fundamental como o de ontem, que pode ser a diferença entre participar ou não da próxima Copa do Mundo.

Não fossem as chuteiras coloridas pensaríamos que o jogo de ontem era, na verdade, passado numa década passada, mas nisso também não podemos culpar os jogadores, posto que a responsabilidade desse sarapintado psicodélico é unicamente dos fabricantes das botinas, que gostam de seduzir pelo grito e não pela elegância.

Temos, enfim, um sopro de vida e um naco de esperança no que diz respeito ao escrete nacional, é fato. Mas onde exatamente nasceu essa maturidade repentina? De onde veio essa onda de sensatez?

 

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Saber, ninguém sabe, mas tenho cá pra mim que Renato Augusto está metido nesse desenlace.

Olhem pra ele, meus caros. Olhem e vocês verão ali um homem sério, um dublê de mordomo, um aprendiz de maître.

O camisa 18 de Dunga, pela carcaça, parece ser sujeito dos mais sérios, do tipo que descende de Durval, o indômito. Cara desprovido de qualquer gracejo ou acessório. É puro e simples como um filme de Chaplin, sem alegoria, sem o pecado do excesso.

Penso que Miranda, outro filho bastardo da sisudez, também andou despejando um caldo quente pelos ouvidos daqueles guris nos corredores da Granja Comary.

Seja de quem for o mérito, o fato é que os piás da Seleção parecem, pela primeira vez em muito tempo, mais empenhados em jogar futebol do que em enfileirar selfies no saguão do aeroporto, com a boca sempre arreganhada, como quem quer assinar contrato de publicidade com a Colgate.

Pois que seja assim agora e pra sempre. E que nossos piás continuem dizendo não ao caviar de artificialidades e encampando os mais ferrenhos pratos de arroz, feijão e bife, que é a parte que nos cabe deste latifúndio.

Foi assim que vencemos tudo o que vencemos.

 

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Fotos: Ueslei Marcelino / REUTERS

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