Ao povão o que é do povão

Na segunda rodada do Campeonato Mineiro, o Atlético abriu os portões do Horto para os moradores de rua

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Ninguém sabe ao certo de quem foi a ideia perversa de inflacionar os preços dos ingressos dos estádios a níveis boçais, como se José Sarney ainda desse as cartas por aqui, mas, seja como for, o fato é que o infeliz afastou dos nossos campos os seus mais merecedores fregueses: o povão.

Aos poucos, assustado com a pedida das bilheterias, o proletariado foi se levantando do concreto e deixando sentar em seu lugar um almofadinha qualquer com sua própria almofadinha – a derrière, afinal, não pode sofrer com a falta de conforto. E as Pipotecas e os picolés de palito foram saindo também, deixando o palco para croissants banhados de manteiga francesa e paletas mexicanas vendidas a preço de meio salário mínimo.

Mas eis que nem tudo é tragédia nesse nosso novo futebol orientado à burguesia. Um dia o milagre se desenha. E ele chega quieto e taciturno, pisando em ovos e abafando o som, afinal é um milagre, e milagres acontecem na sombra, longe do olhar atento da multidão.

Pois bem, o prodígio maior do nosso futebol neste ano da graça de 2016, que ainda engatinha, se deu ontem na rua Pitangui, 3.230, nas Minas Gerais.

Foi ali, num Independência com todos os poros abertos para a classe média mineira, que 90 moradores de rua voltaram a acompanhar uma partida de futebol in loco, driblando as bilheterias e as catracas tal qual Garrinchas ciscando pelo Rasunda.

 

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Pratto marcou o seu tento depois de um longo inverno. E 90 homens comemoraram como se não houvesse amanhã. (Foto: Superesportes MG)

 

Não seriam bem-vindos em qualquer lugar de Belo Horizonte ontem, figuras obscuras que são estes viventes para nós, limpos e banhados. Tentassem entrar no mais indecoroso dos bares e seriam barrados. A cachaça barata lhes seria servida do lado de fora, pra manter a ordem e a limpeza do lado de dentro. Mas estes varões, rebotalho da sociedade vil que a gente cultiva, foram bem-vindos ontem no Independência, que aceitou de peito aberto aquela gente para quem o futebol foi inventado.

E foi, meus caros, o mais genuíno carnaval em plena quarta-feira de cinzas.

Homens pra quem a ventura deu de ombros, meninos sem futuro, velhos sem história e toda sorte de sujeitos castigados pela existência berravam a plenos pulmões nas poltronas de plástico do Horto, empurrando o Atlético em preto e branco porque a vida dessa gente nem sempre é em cores. Por 90 minutos, 90 almas sedentas reivindicavam aquilo que era delas no princípio. E pediam, sem dizer uma única sílaba, o direito de voltar à casa do futebol e se instalar meticulosamente nas gerais dos nossos campos e ficar ali, quietinho que fosse, com a brandura de quem deita debaixo das marquises, clamando em silêncio por um gol, um passe, um drible ou qualquer outra coisa que faça a tristeza fugir um pouquinho e a fome ser esquecida.

Ali, sem atrapalhar os ricos empapuçados com seus sanduíches gourmets nem manchar a televisão com sua presença rude, os homens pra quem o futebol foi feito puderam, enfim, aproveitar um naco daquilo que é deles por direito e por decreto.

Na semana que vem, a vida volta ao normal. E os homens da rua estarão novamente nos becos e nas alamedas, largados e esquecidos, envoltos em cobertores, bebendo aguardente, caminhando errante e perguntando pra cada dono de carro quanto deu o jogo do Galo, porque quando falta dinheiro pra comida também não sobre um troco pra pilha que alimenta o radinho.

 

RELEMBRE: O QUE O MINEIRÃO VIU NESSES 50 ANOS

 

Foto de capa: Fernando Martins Y Miguel, do globoesporte.com  |  Foto de apoio: mg.superesportes.com.br

 

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8 pronunciamentos sobre

Ao povão o que é do povão

  1. Nunca fui do povão, ainda que tenha frequentado a coreia, num beira rio que não é do teu tempo. Povão é uma categoria diferente, está ao lado do cara que tem almofadinha, esse elitista sortudo. No mais, sempre uma grande crônica. E, no meu caso, uma reclamação: cada vez que quero comentar tenho que preencher ficha. Isso não é coisa pro povo!

    1. Grande Mariel! E grande Coreia! O senhor é da casa, meu caro. Não deveria ter de preencher ficha alguma. Vou ver até onde eu consigo mexer com essas modernas coisas de blogue pra deixar o senhor e outros nobres viventes comentarem sem censura nem chatices. Grande abraço.

    1. Fico feliz com tua visita, meu caro. Conheci também a tua página e gostei barbaridade. Pena que eu não posso curti-la, por ser Fanpage no Facebook. Mas saiba que estou sempre acompanhando.

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