Antes de irmos para casa

Palmeiras e Corinthians fizeram o último dérbi no Pacaembu antes de irem para os seus novos estádios. E João assistiu a seu último jogo

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Palmeiras e Corinthians não vão mais jogar o dérbi no Pacaembu. Logo, o Palestra inaugura sua nova casa, na Vila Pompeia. O Timão já inaugurou a sua, em Itaquera. E assim, a torcida paulista só volta ao campo, tão comum aos dois, por acidente.

João Correia Leal Filho também não volta mais ao estádio Paulo Machado de Carvalho. Nem a qualquer outro. Deu a vida pelo Palmeiras. Expirou depois do gol de Henrique, no primeiro tempo, quando o coração, embebido em alegria e furor, sofreu uma parada.

Eu não conhecia João.

Mas gosto de imaginar que era um palestrino ferrenho, figura sempre vista nos arredores do estádio onde jogasse o Palmeiras, radinho de pilha numa mão, amendoim na outra.

Imagino até que em casa sua esposa, vendo o nervosismo que acometia João, já antecipasse, em tom de brincadeira funesta, a despedida: “Qualquer hora teu time mata você, João”.

E ele mata mesmo.

Quando a gente é criança, que é também quando o caráter é forjado e o gosto por um time é tatuado na última camada da alma, a gente não sabe bem o que está fazendo. Ninguém percebe que o amor pela camisa vai mais fundo do que deveria. E aí, a gente cresce. E o amor pelo escrete vai crescendo junto, como um nódulo que os médicos juram ser benigno mas que, no âmago, a gente suspeita que um dia vire câncer.

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O nosso time perde, a gente perde junto. A gente sofre. O coração aperta. O peito dói. Às vezes, literalmente.

João foi até o Pacaembu ontem se despedir do estádio. Foi ver o seu Palmeiras patrocinar uma única e minguada alegriazinha no centenário.

E viu. Viu Henrique entrar na área sozinho, assobiando Domingo no Parque, de Gil, calmo como quem passeia pelo Ibiraquera num dia de sol. Viu ele empurrar o couro pra dentro das redes de Cássio e sair comemorando feito um degolador, povoando de euforia e júbilo as arquibancadas – hoje cheias, amanhã esquecidas – do Pacaembu.

O coração de João, então, assustado com aquela dose cavalar de alegria que lhe rasgava as artérias, esmoreceu. E a vista turvou, o braço amorteceu, o semblante mudou. O sorriso caiu do rosto e João sentou, pediu ajuda, chamou por médicos. Talvez tenha chamado também pelo nome da esposa a fim de dizer-lhe no ouvido você estava certa, mulher, você sempre teve razão, você sempre soube das coisas, me perdoe, meu Palmeiras me levou.

Deitou na maca, saiu do Pacaembu pela última vez, metade melancolia, metade felicidade. O Palmeiras lhe tomava a vida, mas vencia o clássico.

João nunca tinha saído do campo daquele jeito. Já tinha ido embora dali feliz, triste, classificado, eliminado, campeão, mas nunca daquele jeito, deitado, na horizontal feito um Valdivia.

Ele olhou para trás pela última vez, contemplando o verde do campo, o verde da camisa, como olharam os outros milhares de torcedores que se despediam. Mas só ele, na verdade, nunca mais vai voltar.

João morreu no hospital. Não sei bem a que horas, mas gosto de imaginar que foi antes do gol de empate do Corinthians. Sou mais feliz, assim, pensando que os roteiristas do Futebol guardam um certo respeito por homens como João, e não exibem diante da cara desse tipo de gente seu sarcasmo exagerado, seu riso ardente, sua ironia.

Assim, fico aqui imaginando que o Corinthians tenha esperado os médicos da Santa Casa confirmarem que João morrera – e morrera feliz – para só então, só aos 46 do segundo tempo, empatar o último dérbi do Pacaembu, o derradeiro dérbi de João.

 

 LEIA A CRÔNICA DO CENTENÁRIO DO PALMEIRAS

 

A foto de capa é do assombroso Futebol de Campo. E a de apoio, do sempre sagaz Gabriel Uchida, do Foto Torcida.

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