Alma cheia, camisa vazia

Paraná, Operário e Atlético-PR abrem mão do seu maior símbolo em homenagem às vítimas do câncer de mama

gazeta_press

 

Os dois escretes estão ali, perfilados no gramado, à espera das primeiras notas do hino nacional.

A câmera passeia pelos donos da casa, mostra rostos, expressões, olhos fechados. Vemos o uniforme, as cores, o escudo: trata-se do Esporte Clube Vitória.

A lente, então, migra para os visitantes, que estão logo ao lado. E mostra o semblante ansioso daquela gente, a cara suada daqueles homens. Depois, desce para as suas camisas.

É quando vemos um fardamento distinto, diferente de tudo o que já vimos num gramado até aqui: não há escudo nenhum naquela camisa. Não há nada, um pormenor que represente aquela agremiação. Ninguém sabe bem quem é aquele adversário do Vitória.

A câmera, como quem também estranha aquilo tudo, continua o seu movimento, recua mais à procura de uma explicação e vemos que aqueles homens de branco, sem identidade, seguram uma faixa que lê, em letras garrafais, o seguinte:

TIRAMOS O ESCUDO DO PEITO EM HOMENAGEM ÀS VÍTIMAS DO CÂNCER DE MAMA.

E ali, na faixa, aparece a araucária, a gralha, o azul e o vermelho – o inconfundível brasão do Paraná Clube.

É o time da Vila Capanema que está lá, portanto. E ele acaba de marcar a ferro e fogo a sua história: arrancou do próprio peito o escudo para mostrar às mulheres que perderam os seios que, sim, existe vida depois da peleja, e que é possível seguir a labuta quando um pedaço tão substancial da gente ficou pelo caminho.

 

Atletico-PR X Corinthians
Mastectomia na camisa: o Atlético-PR também entrou em campo sem escudo

 

E aquela partida acabou ali mesmo, sem nunca ter começado. E veio, depois disso, outra partida, completamente diferente. Porque no estádio, em casa, nos bares e nos manicômios, o povo todo sabia que estava em campo muito mais do que uma camisa, ou os 3 pontos, ou um jogo – estava um princípio mais nobre do que tudo.

Pelo país todo, homens e mulheres foram abraçados por um estofo branco, uma camisa que, mesmo sem identidade, dizia mais do que já disse qualquer outra.

Eu gosto de imaginar que filhos ligavam para suas mães, que venceram a doença, e pediam para que ligassem a TV posto que havia, assim, de repente, uma homenagem espantosa a ela. E essas mulheres, então, sintonizavam o futebol e viam aquilo tudo e logo ligavam para outras senhorinhas, que davam também sequência aos avisos, formando assim uma imensa corrente de respeito e consideração.

E, de súbito, as mulheres que não sabem o que é o futebol, acompanhavam o jogo e, mesmo não entendendo nada, mantinham os olhos na camisa do Paraná, sabendo que ali, naquele intervalo branco sem tinta nem brasão, morava uma reverência calada à sua dor.

 

***

 

Longe dali, em Belém, o Operário também jogou sem o escudo, em uma das partidas mais importantes da sua história, que valia vaga para a Série C do Brasileiro. E em Curitiba, o Atlético-PR não jogou, mas foi a campo igualmente sem escudo, como se fosse vítima de uma mastectomia.

A ação é uma iniciativa sublime da Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, assinada pela agência CCZ*WOW.

 

***

 

[Atualizado]

O Governo do Paraná lançou um vídeo que explica a ação e mostra, sobretudo, como ela impactou a vida das mulheres paranaenses. Assista.

 

 

Foto de capa: Gazeta Press  |  Foto de apoio: futebolparanaense.net

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6 pronunciamentos sobre

Alma cheia, camisa vazia

  1. Fiquei muito emocionada com a iniciativa, e mais ainda com o seu texto, Velho.
    Passar pela luta com o apoio de todos, deve ser muito mais confortante.

    “…sabendo que ali, naquele intervalo branco sem tinta nem brasão, morava uma reverência calada à sua dor.”

    Parabéns!

  2. Parabéns pela campanha, pela iniciativa, pela sensibilidade, pelo texto e pelos homens valentes que foram solidários.
    Nessa campanha a dor se tornou menos solitária.

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