Ainda não é hora para o épico

Atlético e Cruzeiro travaram um jogaço no Independência. Mas o embate mitológico está guardado para o Mineirão

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Existe uma diferença colossal entre o primeiro jogo de uma final e o segundo.

Os dois valem, a rigor, a exata mesma porção. Mas só o último carrega o peso irrevogável do definitivo.

O primeiro embate é aquele costumeiro cheirar de rabos dos cães de rua, que querem averiguar pelo faro apurado o tamanho da ameaça que ronda o seu poste.

Mas o segundo, o cabal, o que distribui louros ou dissemina lágrimas, não cede espaço para a morosidade. É uma rinha franca de cães desmedidos, cachorros coléricos à procura duma jugular qualquer. São 32 caninos por boca, todos procurando um naco de carne para mastigar, sorver sangue e, então, cuspir no asfalto frio.

Talvez por isso nós não tenhamos visto o épico que nos prometeram.

Quem esperava por um embate mitológico, saído das páginas de um Homero, encontrou uma peleja firme e alvoroçada.

O Atlético, impelido pela sua Massa delirante, foi até voraz e procurou ofender a camisa estrelada, concatenado por Dátolo, apoiado por Marcos Rocha e liderado por Luan.

Já o Cruzeiro, devoto dos pontos corridos, atacou menos e, quando viu o placar construído, aceitou a derrota com a passividade de uma gueixa, esquecendo que um gol – um mísero e desaforado golzinho – poderia simplificar sensivelmente a tarefa no jogo de volta.

No maior dérbi da história entre Atlético e Cruzeiro, ninguém foi expulso, ninguém lançou uma só cusparada, ninguém bradou contra o juiz, nenhum cachorro invadiu o campo.

Porque isso tudo, o embate soberbo, o jogo cabal está guardado para o Mineirão.

Os sobressaltos e as taquicardias que vão calar Belo Horizonte e reprimir o país inteiro num silêncio inequívoco virá. Mas só daqui a 15 dias.

 

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Porque a epopeia, o duelo inesquecível, as tramas e reviravoltas dormem quietos, na espreita, guardando sua hora de estourar.

E até lá, atleticanos e cruzeirenses vão saborear, cada qual à sua maneira, a esperança e o desespero.

Serão duas semanas de suspensão completa de tudo o que carece de atenção em Belo Horizonte.

Médicos não trabalharão, sabendo que bisturi nenhum é confiável nas mãos trôpegas de quem espera a maior definição das alterosas. Nem serão fechados negócios, posto que ninguém em seu juízo há de ler contratos nem nada que não seja um rechonchudo diário de esportes.

As Minas Gerais entram hoje, oficialmente, em quarentena. Nada acontece por lá além do exercício cívico das discussões fundamentais sobre Futebol, sobre quem vai vencer, sobre a possibilidade de o Cruzeiro patrocinar o impossível ou Atlético padecer do seu próprio veneno.

Vivemos todos aqueles dias que antecedem o épico.

Que ele venha.

 

Foto: Alexandre Guzanshe / EM / D.A. Press

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