A vitória da espera, a derrota da arrogância

Depois de 7 anos de aflição, o Atlético-PR voltou a erguer uma taça. E a demora foi docemente compensada

franklin_de_freitas_bem_parana

 

Os distraídos não percebem e os ingênuos nem imaginam, mas nesses anos de jejum de título, quando nada acontece, os roteiristas da bola estão em silêncio tramando coisas grandes.

Foi assim nesses anos em que o Atlético-PR foi atacado pelas sete pragas do Egito, passando fome, sentindo sede, cuspindo sangue. Apesar do estádio novo, nenhuma graça foi alcançada, acumulando sete temporadas da mais absoluta inércia. Nenhum título, um vice-campeonato nacional e 5 vices estaduais.

E o povão, ao abrigo do sol e da chuva na novíssima e coberta Arena da Baixada, chorava alto e brindava a tristeza com copos cheios de fel, sem imaginar que pertinho dali o acaso escrevia uma compensação gorda e rechonchuda, farta como um prato feito na medida para Walter.

Foi então que o Atlético-PR se classificou para a final do Paranaense contra o seu mais ardente rival.

Pelos lados do Água Verde, ouvia-se o temor. Nos últimos anos, o escrete atleticano perdeu o jeito de jogar Atletibas e andou sucumbindo jogo após jogo, dentro ou fora de casa. Pelos becos do Alto da Glória, ao contrário, pairava uma espessa soberba, uma confiança excessiva – a taça vinha, faltava saber o placar.

E esse, qualquer piá de cueiros sabe, é o cenário perfeito para a tragédia.

 

ewandro_franklin_de_freitas

 

O escrete de Gilson Kleina, acostumado às vitórias recentes contra o Atlético Paranaense, pensou que o jogo de ida estava ganho na véspera e entrou em cancha como gordo entra no buffer por quilo: pensando na sobremesa. Ouvia-se o som do salto alto do Coxa batendo contra o piso no túnel de acesso do Joaquim Américo, mas foi pisar no campo e já não se ouviu mais nada do Coritiba: o time era puro medo e covardia. A arrogância virou submissão e, de repente, o Atlético-PR mandava no jogo, colocava o adversário na roda e ria estridente, com dedo em riste, passeando em cancha e fazendo gols como se fosse mero treino. O resultado foi aquele que os senhores viram: um baile ao som de Carlos Gardel sem susto, nem suspiros. O Coritiba não se deu ao trabalho de resistir, caiu como moça cai no papo de marmanjo. Foram 3 gols em vinte minutos e a fatura estava liquidada.

No jogo de volta, o Atlético-PR manteve a sanha nos olhos e o Coritiba trouxe o mesmo futebolzinho insosso de antes, com uma alteração: no lugar da empáfia, entrou a insegurança. E no primeiro tempo, o Furacão já surrava por dois a zero e mantinha o ritmo da dança.

Foi uma vitória sem precedentes: cinco a zero na soma dos prazeres. Uma goleada obscena, quase pornográfica. A romaria festiva foi do Major à Baixada, pulsando noite adentro e chacoalhando a cidade ao som de cânticos e batuques. Ricos e pobres se abraçavam e bradavam que nascia ali um novo campeão.

Hoje, além da festa, de se gabar da faixa e de curtir os cinco gols num videotape ad aeternum, cabe ao Atlético o prazerzinho sórdido de olhar no canto e ver o Coritiba encolhido, envergonhado da sua gente, com suas chagas abertas sem ter um merthiolate pra fechar. Nas duas últimas finais de Paranaense, foram 4 jogos, 10 gols sofridos e nem um marcado. Um vexatório placar de 10 a zero, senhores. E uma goleada dessa envergadura precisa ser sentida de um lado da cidade, e celebrada do outro.

 

RELEMBRE: SOBRE ABRAÇOS E AFAGOS

 

A foto é do sempre atento Franklin de Freitas, do Bem Paraná. Veja a galeria completa aqui.

 

PartilheTweet about this on TwitterShare on Facebook

5 pronunciamentos sobre

A vitória da espera, a derrota da arrogância

  1. Como é bom ter o velho cronista nessas alturas do campeonato, sempre com suas papas na lingua enaltecendo o futebol paranaense.
    Obrigado

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *