A vergonha precisa doer

A goleada vexatória que o Inter sofreu para o Grêmio ainda vai arder por muitos anos – e é bom que seja assim

diego_vara_rbs

 

É madrugada e eu só consigo pensar no torcedor do Inter.

A essa hora, enquanto escrevo, imagino que ele esteja deitado, mas não dormindo. Tem os olhos abertos, estatelados, fitando o teto. Os dentes rangem e o ouvido ouve só o zumbido ricocheteando as mesmas duas palavrinhas nefastas, como que um Marlon Brando a sussurrar no escuro: o horror, o horror.

Na verdade, não é nem uma questão de como eu penso que ele esteja, mas de como ele precisa estar. É um dever que esteja assim, sofrendo. Todo torcedor do Internacional com algum escrúpulo tem que estar aceso e amargando a essa hora.

Aquele que fugir desse ritual de padecimento é um canalha.

Vejam, é uma questão de respeito à dor.

Há que se guardar uma certa reverência às derrotas avolumadas. Um vexame como esse, que traz cinco gols no lombo e causa estrondo onde antes vivia só o barulho, deve ser fermentado dentro da alma. E a vergonha deve envelhecer como um bom uísque dentro da gente, demorando pra ganhar corpo, mas enfim, se transformando em alguma coisa útil, que, embora boa, vai sempre descer arranhando feito uma gata no cio. Sim, porque até as derrotas mais descomedidas trazem ensinamentos, cedo ou tarde. E vai chegar o dia em que o colorado vai fazer dessa desonra uma aula de conduta – ou não-conduta –, dissipando toda e qualquer crença de que derrubar um técnico 3 dias antes de um Grenal pode ser um caminho para o triunfo.

O Inter, a gente sabe, não chega a ser um debutante na arte de levar cinco – ano passado, o escrete gaúcho já foi sugado para dentro do covil da Chapecoense. Mas há um oceano Atlântico inteiro entre aquela derrota e a de hoje, ainda que o placar seja idêntico. É que uma coisa é ser aviltado por um estrangeiro, que mora longe e demora pra dar as caras novamente; outra, bem diferente, é sucumbir vergonhosamente para o seu íntimo, que vive na mesma casa, cuja cara feliz, estridente e cínica terá de ser enfrentada logo cedo, sem qualquer traço de misericórdia.

Perder pra quem mora perto é perder um pouco a cada dia, é ser lembrado da desgraça de quando em quando, como se o escárnio fosse um relógio cuco sarrista, que nunca perde o horário da zombaria.

A goleada para os catarinenses já é surra quase esquecida na Padre Cacique, mas os vergões deixados pelas cintadas do Grêmio vão demorar muito para sumir. E que seja assim mesmo, porque a desonra é uma cicatriz que deve ser cutucada sempre, bem fundo, como quem não quer deixar a dor escapar. Então, que isso tudo doa uma barbaridade – se a dor não forma um bom time, pelo menos ela forja bons torcedores.

 

RELEMBRE OUTRA GOLEADA, AGORA EM FAVOR DO INTER: É NOITE NO BEIRA-RIO

 

Foto de capa: Diego Vara / Agência RBS

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2 pronunciamentos sobre

A vergonha precisa doer

  1. Meu salgueiro já levou sete do santa cruz e remoi na solidão do meu ser essa derrota enquanto ruminava meus pensamentos. Apesar de meu time ser quase ilhado e ter perdido de um psudo estrangeiro, marcou muito. Sensacional o texto!

  2. Uma derrota assim dói barbaridade, Rodolfo. Bacana ter você por aqui, comentando. Fiquei curioso e fui visitar seu blogue, o camisa5.com, e gostei muito. A começar pelo nome. Tá de parabéns, cidadão. Bons podcasts.

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