A noiva veste o véu

Enfim, o Maracanã voltou a usar a sua coroa fundamental: as redes que estufam como nenhuma outra

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Quando a FIFA assumiu o leme do Futebol brasileiro para instituir a Copa do Mundo por estas bandas, a cultura boleira do nosso país sofreu as mais íntimas transformações.

Os estádios clássicos, nutridos de lendas e fábulas, viraram arenas sem nenhuma história. Os arquibaldos, que passavam o jogo todo de pé com seus radinhos à pilha, tiveram de se sentar em cadeiras numeradas, regadas a sinal de wi-fi. O pão com bife, comprado com o troco do ônibus, perdeu espaço para o sanduíche gourmet, que de tão caro merecia as agruras de uma CPI.

Mas houve ainda uma outra derrota do nosso Futebol para o impiedoso padrão FIFA: o fim do véu de noiva do Maracanã, a mais clássica e lendária rede de traves de todo o ocidente.

Os homens de terno determinaram que o teatro maior da bola deveria abandonar o seu distintivo mais célebre para abraçar uma coqueluche moderna, idêntica a todas as outras, filha bastarda do ordinário.

E então, um dado dia, o Mário Filho amanheceu com essa malha vanguardista, que tem tomado conta dos estádios todos. Uma parede de fios que comete o maior pecado do Futebol: livra docemente o arqueiro da humilhação de ir buscar a bola no fundo do barbante. Sim, observem como esta rede é tencionada ao seu limite, devolvendo a bola para o meio da área ao menor chute do adversário.

Mas enfim, meu amigos, o tempo passou e o Maracanã acabou desdenhando da FIFA em nome dos seus dias de Zico.

Ontem, o estádio Mário Filho se fez noiva e vestiu, com a graciosidade de uma virgem, o véu branco e imaculado da benesse.


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Flamengo vs Atlético-MG, no Maracanã, em 1980

Ontem, 40 mil alminhas foram ao estádio Mário Filho em busca de ópio, do Flamengo, da bola – foram ver, ouvir e dar passagem ao maior e mais prazenteiro símbolo do nosso Futebol.

E coube a Maicosuel, trajando a camisa do Atlético de Minas, a honra de inaugurar o rebolado das novas redes: entrou na área, gingou e fuzilou contra a meta rubro-negra. A torcida toda estremeceu. Mas não foi só aquele chacoalhar medonho de quem sofre um gol – foi também o trepidar sereno de quem vê que o bom filho de volta à casa depois de uma temporada completa do mais impetuoso sumiço.

Mas eis que depois, empurrado pela massa frenética, o Flamengo ganhou terreno, empurrou o Atlético para dentro da sua área e ganhou cancha. Eduardo da Silva entrou, mudou o panorama do jogo e sofreu um penal. O estádio todo se fez mudo, como quem espera ver o milagre ser consumado ali, na sua frente. Léo Moura puxou o couro para debaixo do braço, firmou na marca da cal e estufou violentamente as redes de Victor, patrocinando um furor ímpar em toda a magnética, que vibrava não só pela igualdade no placar mas, acima de tudo, por ver aquela redinha balançando com toda a delicadeza, como manda o almanaque da tradição.

Depois, houve ainda mais um balançar de redes, tímido no sacudir mas presunçoso na importância: era o gol de virada do Flamengo, que saía definitivamente da zona do desespero, ganhando posições na tabela como quem nada a braçadas.

E todos, no estádio, na televisão, no videoteipe, pudemos ver o porteiro do Atlético passar pelo humilhante ritual de buscar a bola nas entranhas da rede, se debatendo com o barbante como fosse um pescado abatido e derrotado.

O Flamengo venceu. E o Futebol brasileiro colecionou mais uma pequena conquista, cortando um miúdo pedaço do cordão umbilical que nos liga ao padrão europeu – que não é nem nunca será o nosso.

O Maracanã voltou a ser tupiniquim, voltou a ressoar o som dos pássaros, voltou a cobrir de delírio quatro torcidas que banham nele suas lágrimas de sorrir e pesar.

A nossa noiva está de volta – e está de véu.

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