A noite inteira em um minuto

Pela Copa do Brasil, Palmeiras e Internacional jogaram por 90 minutos. Mas um deles valeu pelo jogo todo

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São 90 os minutos da peleja. Ora, isso tudo mundo sabe. E sabe tanto que virou até um segundo nome do jogo ao longo do tempo, uma espécie de clichê, um porto seguro para onde se parte quando nenhum outro sinônimo ocorre. O que pouco se fala é que nenhum minuto é igual ao outro. E que cada um tem sua beleza específica, seu valor particular.

Os primeiros minutos são de estudo, cão cheirando o rabo alheio pra entender o tamanho do problema. Os últimos, quando a vida está em jogo, tomam a forma mais pura e tenra do desespero, latidos em profusão, baba espessa vazando pelo canto da boca, mordidas carregadas de raiva e outras chagas.

E por vezes, ainda que os 90 minutos do embate sejam grandes e bom de viver e assistir, às vezes, e só às vezes, os jogos podem ser espremidos num feixe de tempo menor do que tudo, numa única volta do ponteiro maior do relógio. Pois foi o que se deu ontem, no choque entre Palmeiras e Internacional, pelas quartas-de-final da Copa do Brasil.

Era o 74º minuto do confronto. E o placar, escancarado, já marcava 2 a 1 para os paulistas, que precisavam da vitória pra continuar a jornada. E esse minuto preciso, fulminante como um infarto, começa em uma falta para o Inter pelo lado canhoto do campo. Alex cobra, a bola encontra a cabeça de Dourado, que desvia e cai nos pés ligeiros de Lisandro López, que empurra o couro contra o barbante. O Allianz Parque é, então, acometido de um silêncio funesto, classificação que se esvai, lágrimas que descem.

A cota vermelha de Porto Alegre, a esta altura, vive o mais triunfante carnaval – o Inter está classificando ao passo que o Grêmio, em casa, está caindo diante do Fluminense.

 

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Mas do minuto todo que temos a narrar, só 15 ou 20 segundos se passaram. Há, portanto, mais a se contar sobre isso. E o relógio segue com a bola sendo posta novamente na metade do campo, no centro do globão, para o reinício de tudo, com o placar, agora, apontando um salomônico dois a dois. E o couro renasce de posse do Palmeiras, que parte pra dentro da área colorada de forma desembestada, como cavalos sem cabresto.

A bola, de repente, como que mancomunada com o destino, espirra nos pés de Lucas, que logo transmite o passe para Allione, na direita. Ele faz a passagem pelas costas do beque, se achega da área, levanta a cabeça e cruza – cruza, não, ele passa, e passa de forma perfeita, pondo a bola na cabeça de Andrei Girotto como se fosse uma coroa. O passe vem gordo, redondo, rechonchudo, e a cabeçada certeira projeta a bola sobre as mãos de Alisson, que sente o vento do couro soprar contrar as luvas e, depois, sente o hálito fervoroso da multidão a berrar mil achincalhes e estourar num frenesi abissal. A vaga voltava a ser do Palmeiras, como numa piada sórdida dos roteiristas do futebol, que se riam do Inter pela chiste malvada, que fez encantar por um minuto, um minuto apenas.

E houve, depois disso tudo, mais jogo, mais pressão, mais lágrimas, mais orações e mais promessas, porque nenhum cidadão sério termina uma noite de mata-mata sem procurar Deus no escuro. Mas nada do que houve em seguida foi mais sacana do que o que coube naqueles 60 segundinhos sujos, da mais completa desventura colorada.

Ontem, o tempo se fez gigante. E abrigou, num único minuto, toda uma noite febril de quarta-feira.

 

Foto de capa: Ronny Santos / Folhapress  |  Foto de apoio: Ricardo Duarte / Internacional / Divulgação

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