A noite dos exilados

Barcos e Zé Eduardo voltaram de algum lugar em que até se joga Futebol, mas nunca se faz gol

Barcos

A discreta torcida que foi até a Arena acompanhar Grêmio vs Coritiba, ontem, sabia de uma verdade inquestionável: os dois escretes jogariam com um homem a menos.

Barcos, do lado azul, e José Eduardo – que atende pela alcunha de gosto duvidoso de Zé Love –, do lado verde, eram figurantes.

Somados, os dois vinham de algo em torno de 20 jogos sem sacudir o cordão. E isso, amigos, é crime hediondo para quem enverga a camisa 9.

Eles estavam no mais distante exílio, vivendo uma desventura indigesta. Faziam de tudo, mas não praticavam a mais pura e simples forma de centroavância.

Começa o jogo e o melhor que eles fazem é patrocinar algumas corridas em direção à bola, mas nada que fizesse o torcedor driblar o frio, largar as túnicas e baixar o chimarrão para estourar de pé na arquibancada.

Intervalo de jogo e tanto Enderson Moreira quanto Celso Roth devem ter despejado palavras quentes pelos ouvidos dos boleiros, porque o que se viu no retorno foram dois times mais agressivos, com todos os poros abertos para a vitória.

Logo aos 3 minutos, quando a torcida que volta munida de pão com bife e cerveja sem álcool ainda procura no canhoto o número do seu assento, Robinho enxergou Zé Eduardo assobiando pela área gremista e resolveu lhe entregar a bola, como quem testa a audição de um surdo: fez sabendo que não viria resposta alguma. Mas para a surpresa geral, o Futebol exilado do rapaz ruivo aterrissou às pressas na área gaúcha: ele matou o couro, driblou Grohe e anotou um tento lindíssimo na Arena.

Barcos, que via a tudo do outro lado do campo, se interessou pela história. Combinou um golpe com Fernandinho pela esquerda, recebeu, gingou e meteu o chute fatal de perna esquerda.

Estava empatado o jogo e o duelo particular.

Mas o tento de Barcos, em comparação ao de Love, havia sido menos belo. Ele queria um outro ainda. E maior.

Luan, então, encontrou toda brecha na zaga do Coritiba e passou para o Pirata, solitário como um viúvo, entrar na área com a bola dominada, deitar o arqueiro e sacudir a rede. Estava anotado mais um golaço na Arena Grêmio. E Barcos e os mandantes estavam na frente.


 

Screen Shot 2014-07-28 at 11.39.32


 

Mas Zé Love, cansado de usar os pés – uma vez em dez ou doze jogos – resolveu colocar o ombro na bola para empatar a peleja. Era a prova cabal de que, apesar do apelido, Zé Love não estava para brincadeira.

Tudo igual na Arena do Grêmio.

Mas o Coritiba trazia a tiracolo um craque, o último exemplar do jogador-torcedor. E no crepúsculo do jogo, quando as duas torcidas já aceitavam a igualdade salomônica, Alex recebeu um passe de Norberto, curtido no mel, dominou, fitou Grohe e mandou bala, fazendo estufar drasticamente as cordas brancas da Arena gremista.

Era o gol inapelável, daqueles que acontecem tarde demais, quando os créditos já estão subindo e a luz do cinema já está completamente acesa. Impossível mudar o fim daquele filme, que já estava em cartaz no Rio Grande desde a mesma 12ª rodada do Brasileirão 2013.

Do lado do Coritiba, venceu o time todo. Do lado do Grêmio, venceu só Barcos.

E as duas camisas onde residem as mais elevadas expectativas verdes e azuis de gol voltaram, enfim, do exílio.

 

RELEMBRE O DIA DO FICO DE ALEX NO CORITIBA 

 

Foto: Lucas Uebel / Getty Images

PartilheTweet about this on TwitterShare on Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *