A melhora da morte

O Vasco estava moribundo e sabíamos do seu destino – mas o time resolveu ensaiar um milagre e dar falsa esperança ao povão

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Já estamos todos muito certos e concordantes das maldades do futebol. Sabemos que no meio da alegria e da euforia que ele proporciona mora um caráter sujo e malcriado, quase rastejante, que vive de nos podar a alegria e derrubar o sorriso da boca da gente.

Mas tenho cá pra mim que agora o futebol foi longe demais.

Este rebaixamento do Vasco da Gama foi uma das maiores maldades que o esporte bretão andou estabelecendo por estas bandas desde que Charles Muller apareceu por aqui, com o capotão debaixo do braço.

Até não defendo a tese por conta dos 3 vexames em 8 anos, embora isso seja mesmo de uma lamúria grave, mas porque desta vez o time resolveu cair da forma mais cruel que existe, primeiro alimentando o povão de uma esperança imensa para então, na última volta do ponteiro, cair morto, sem qualquer espaço para discussão.

O time de São Januário bem poderia ter ido à lona ainda no meio do certame, quando todos já tínhamos a mais plena certeza que o futuro seria fúnebre. Àquela altura, era líquido e certo que a camisa da faixa preta seria vergonhosamente rebaixada. Estávamos quase acostumados com a tristeza. Era cair e aprender com a queda – ou tentar aprender, já que os outros dois rebaixamentos parecem ter ensinado muito pouco.

Mas, não: o Vasco da Gama desenhou uma reação abissal, daquelas que derrubam as nossas certezas e deixam os matemáticos envergonhados das suas próprias contas.

E assim, em vez de sucumbir de uma vez por todas, o time acendeu uma esperança selvagem na sua torcida. Começou a jogar um futebol melhor, polido e tratado com cuidado.

Nenê chegou e trouxe o grupo para um patamar de conjunto, de família. Jorginho chegou e deu ao time uma cara de time – antes disso, o Vasco era um retrato acidentado do movimento cubista, cheio de pontas, todo desencontrado.

 

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Venceu uns jogos improváveis, empatou outros que pareciam impossíveis e dos últimos 15 embates do campeonato havia perdido um único. Foi assim, com uns números invejáveis e pinta de quem tinha autoridade celestial suficiente para sancionar um milagre, que os cariocas chegaram à última rodada. Era uma quimera para o torcedor, que 3 ou 4 meses antes chorava feito guri sem presente no Natal.

Mas eis que ali, no campo encharcado do Alto da Glória, aquele Vasco da Gama impetuoso, com sangue no olho, esmoreceu, jogou pouco e ainda viu, de longe, os resultados paralelos reprimindo seus sonhos. Morreu ali, afogado no campo, depois de nadar um oceano Atlântico inteiro. Porque o futebol, a gente sabe, é a mais fina forma da ironia.

Pois vamos ao paralelo que me parece inevitável.

Na medicina, estamos todos cansados de ouvir, existe a famigerada melhora da morte. É quando o cidadão, já nas últimas, engana os médicos e a família toda e levanta da maca, rosado e sorridente, caminha pelo quarto fazendo planos e prometendo sonhos. Mas, no dia seguinte, cruza as mãos na cama e fecha os olhos com convicção, pra nunca mais abrir.

Foi precisamente o que o Vasco fez com sua imensa torcida.

Em vez de morrer de uma só vez e reduzir o sofrimento a algumas madrugadas lancinantes, o time preferiu se mostrar forte e capaz de sair da draga e foi, assim, enganando uma multidão, pisando nos frágeis coraçõezinhos da massa alvinegra.

Foi uma morte em doses homeopáticas. Um carnê das Casas Bahia que o cidadão paga todinho, com um esforço sobre-humano, mas que fraqueja na última parcela e vê, assim, sem dó ou misericórdia, o oficial de justiça entrar em casa e tomar aquilo que parecia ser dele.

 

Foto de capa: Paulo Fernandes / Vasco da Gama  |  Foto de apoio: André Luis / AGIF

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