A melancolia de morrer estando vivo

Everton Costa viveu o pior fim de carreira que um homem pode ter: saiu de campo pensando que voltaria

everton_costa

 

Das muitas coisas com a qual homem nenhum sabe lidar, o fim é a que mais mete medo. Porque o fim é definitivo.

Todo o resto, por mais russo que seja, pode ser driblado por uns Garrinchas, chutado pra longe por outros Rivelinos, mas o fim, não – ele é inexorável, não admite discussão nem galanteios.

E não satisfeito, o fim ainda se divide em duas espécies distintas: o evidente, que vemos se aproximando aos poucos, lento como um replay; e o abrupto, que chega de repente, rápido feito um contragolpe argentino.

Pois foi este último fim, o tipo brusco, que pousou agora sobre o ombro de Everton Costa.

A rigor, o pássaro da desventura já sobrevoava o atacante há algum tempo, desde que ele saiu no meio daquele Vasco vs Resende com a mão no coração.

Saiu como sai todo jogador de campo, pensando que logo volta, que ainda tem a carreira toda pela frente, que vai cumprir a promessa que fez ao pai, de que seria o orgulho da cidade pequena, o herói da criançada na escola.

Mas Everton Costa não voltou, nem nunca voltará.

Foi embora sem o sagrado direito da despedida, sem o último vestiário, sem abraçar nem ser abraçado. Logo ele, de alcunha Avatar, foi embora numa maca, imóvel como o menino do cinema.

Falaram que foi uma arritmia, coisa do coração. Talvez miocardite ou doença de Chagas. Disseram até que ele guarda um desfibrilador debaixo das costelas, morando do ladinho do coração, pronto pra funcionar quando o músculo, cheio daquela preguiça de domingo, resolver cochilar.

 

everton_costa_euler_andrey

 

Na verdade, pouco importa o que ceifou Everton dos campos.

O fato é que ele, o jogador, foi fisgado como somos todos nós, torcedores: pelo coração. Foi, portanto, o definhamento mais genuíno do Futebol, o fim mais honrado. Não foi ligamento, nem menisco, nem púbis – foi coração. Ele sentiu ali mesmo, na grama fria, exatamente o que nós sentimos pertinho dali, nas arquibancadas: o peito queimar em taquicardias ardidas e sobressaltos varridos.

Costa sai do Vasco da Gama, do Coritiba, do Internacional e entra para o miúdo rol dos jogadores que amarraram – com veias e artérias – o coração no bico das chuteiras. Agora, ele joga no time de Serginho, de Wendel, de Washignton, de Emerson Nunes.

Mesmo parado, no perpétuo DM da vida, Everton Costa continua recebendo salário do Coritiba até o fim do ano. Depois, será mais um desempregado a ocupar as filas angustiantes do INSS.

E será também um dos nossos. Um torcedor de arquibancada, que tem o peito frágil feito passarinho machucado. E que, portanto, deve manter uma distância segura do Futebol, posto que nessa vida de garrote, um escanteio aos 48 já pode ser o suficiente para fazer um coraçãozinho parar.

 

Foto de capa: SporTV   |   Foto de apoio: Euler Andrey / Ag. Estado

PartilheTweet about this on TwitterShare on Facebook

5 pronunciamentos sobre

A melancolia de morrer estando vivo

    1. Grande Murtinho!

      Fico feliz que tenha gostado, meu caro. Conheci o República Paz e Amor dia desses e gostei uma barbaridade. Tá de parabéns, mais uma vez.

      Forte abraço,

  1. Bênção, Velho. Como sempre o senhor usando as palavras certas pra descrever momentos marcantes. Minha mente necessita de mais textos assim. Grande abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *