A fortaleza escancarada

A Baixada, antes um estádio atroz para os adversários, virou um campo onde qualquer forasteiro pode ganhar

geraldo_bubniak

 

Na esquina da Fernando Moreira com a Brigadeiro Franco, em Curitiba, um piazinho para diante de um cartaz publicitário e fita demoradamente o homem da foto. De repente, ergue a mão à altura da própria testa, aponta os dedos retos e a mão firme contra a sobrancelha e mantém o pulmão quietinho, sem soltar ar, que é pra deixar o peito cheio e a postura reta.

O guri, 6 ou 7 anos, bate continência para o seu general.

A mãe, da esquina, sacola nas mãos, o chama uma, duas vezes. Na terceira, é atendida. O menino descansa o braço e sai marchando como um soldadinho de chumbo até pegar na mão da senhora, que o atravessa pela rua, corpinho pra frente e o pescoço virado pra trás – o mocinho quer ver o ídolo até que os carros e caminhões lhe tapem a vista.

O homem da foto é Thiago Heleno.

E a adoração do gurizinho, assim como a de uma multidão de marmanjos, pode ser explicada com facilidade: o zagueiro é o símbolo mais viril da campanha quase intacta do Atlético-PR em 2016, que classificou o time à Libertadores da América desse ano.

Desde que chegou, Thiago Heleno ergueu um forte em torno da grande área rubro-negra. Junto com Paulo André, seu sócio de zaga, e Weverton, o arqueiro que também serve a Seleção Brasileira, construiu o sistema defensivo mais impenetrável do país.

No Brasileirão 2016, foram apenas 32 gols tomados em 38 jogos. Na Baixada, a covardia com os inimigos foi ainda maior: o Atlético teve aproveitamento de campeão, com uma única derrota (justamente para o campeão) em 19 jogos.

Tamanha vantagem acendeu um debate caloroso em torno do gramado artificial do Joaquim Américo. Quem vinha aqui e sucumbia – quase todo mundo – saía bradando que o problema era a velocidade da bola no campo sintético. Os cartolas do país todo se reuniram para estancar a sangria e tomar medidas. Na mesa da CBF, bateram o martelo: a brincadeira teria que acabar para o certame de 2018.

Mas nem precisou mexer no gramado do estádio do Água Verde porque o Furacão perdeu força em casa e virou uma brisa de verão, que não ofende, no máximo levanta um ou outro vestido de moça distraída.

Mesmo com o Thiago Heleno, Weverton e boa parte do sistema defensivo do ano passado mantido, a fortaleza atleticana virou terra de ninguém. Quem vem de fora encontra um exército dormindo, soldados em plena siesta e um general desvalido, bengala numa mão e um copo de café frio na outra, esperando que a invasão seja rápida e indolor.

Em 8 jogos em casa pelo Brasileirão de 2017, o Atlético-PR saiu derrotado em metade. E sempre pelo mesmo insistente placar de dois a zero: oito gols sofridos e nem unzinho marcado. São derrotas com requintes de crueldade, porque a este Atlético já não basta perder, é preciso perder de forma incontestável.

Pela Libertadores da América, foram 6 jogos em casa – cinco deles na Baixada e um na Vila Capanema –, com 2 vitórias, 2 empates e duas derrotas. E copiosos 12 gols sofridos. De novo, uma média de dois por jogo.

E a mordomia não é reservada só a clubes inteiros, mas a jogadores também, de forma individual. Kayke, avante do Santos, anotou 4 gols por aqui nas suas duas últimas excursões pela cidade. Do jeito que o homem chutava, o couro entrava, como se a própria bola conspirasse contra a grandeza do Furacão.

O estádio atroz que antigamente metia medo, agora é um convite ao prazer.

O general que antes guardava os muros, hoje admite a invasão.

E o piazinho que outrora batia continência, agora segue em busca de outro herói.

 

Foto de capa: Geraldo Bubniak

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5 pronunciamentos sobre

A fortaleza escancarada

  1. Seus textos, mesmo apreciado por um Coxa Branca, sempre sensacionais, uma viagem de leitura que nos faz ver o futebol com antigos olhos.
    Abraços, Velho.

  2. Meu caro Velho – O assunto de suas colunas pouco importam. A genialidade de sua verve e o que conta. Voce consegue ser brilhante em suas observacoes, fazendo com que um coxa de 4 costados, como eu, se encante com uma coluna sobre o….Atletico-Pr. Que sutilezas, que perspicacia, que estilo leve e envolvente voce usa, meu caro.Por favor, continue a nos encantar. Suas colunas sao magnificas!

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