A felicidade também se cria na melancolia

O Vasco da Gama, pura tristeza no Brasileirão, está descobrindo que é possível ser feliz na Copa do Brasil

alexandre_cassiano

 

De todas as convicções que acometem a alma, a tristeza é a mais pegajosa. Um lodo teimoso que puxa pra dentro da tormenta, que afoga sem trégua, que agarra pelos tornozelos e não deixa ir embora – a tristeza, essa canalha, tem essa mania de demorar, de perder a hora no coração da gente.

Mas acontece que de quando em quando até ela, que é quase sempre implacável, acaba se distraindo e deixa brotar no canto do rosto um sorrisinho miúdo, uma réstia de alegria.

Pois é isso o que está vivendo hoje o Vasco da Gama, que mesmo tomado da mais ferrenha melancolia, no subsolo do Brasileirão, está redescobrindo os encantos de um riso breve em outra seara, a Copa do Brasil, que não tem porão, nem degola, nem lanterna.

Ali, onde o Vasco agora se diverte, não há, sobretudo, o pavoroso rebaixamento. É ganhar ou perder. No máximo, ser eliminado, mas nunca achincalhado. Nunca se é exposto nu em praça pública na Copa do Brasil. Dos 64 times, um único é campeão; os outros são irremediavelmente derrotados, cada qual no seu tempo.

Aquele torcicolo medonho de tanto olhar a tabela de baixo para cima já não existe na Copa, onde o regime é igualitário e os times são inexoravelmente achatados a mesmíssima condição.

Talvez seja exatamente isso, essa segurança, essa garantia de que o vexame não vem, que anda empurrando o Vasco pra frente e fazendo as caravelas portuguesas navegarem mar adentro, sem medo da neblina e do escuro.

 

alexandre_cassiano_apoio

 

Por 180 minutos, a dor deixa de doer e a esperança se aninha na alma cruzmaltina. Às favas com o fim do ano, com os 9 pontos pra sair da zona da aflição, com as discussões sobre o paradeiro do respeito – se voltou ou não. Por dois jogos, dois joguinhos de cada vez, o torcedor alvinegro se permite o esplendor de um sonho, de imaginar que sim, é possível descer ao inferno ao mesmo tempo em que se é arrebatado para o céu.

Sábado, agora, o Vasco reencontra o Brasileirão e a aflição vai teimar em voltar, porque a tristeza, vocês sabem, é pegajosa e não desiste. Mas o torcedor carioca deve ter a perseverança e a decência de lutar contra o abatimento. É preciso esquecer as tardes de fim de semana e pensar nas noites de quarta-feira.

A alegria, meus caros, é o completo avesso da tristeza. É um sentimentozinho apressado, que chega tímido feito passarinho e bate ao menor movimento, mas se ela está fazendo ninho no peito vascaíno, há que se aproveitar e sorrir de volta – com uns dentes quebrados e sangue na boca, mas sorrir de volta.

 

O DIA EM QUE O JOGADOR DO VASCO MORREU ESTANDO VIVO

 

Foto de capa: Alexandre Cassiano / Agência O Globo

 

 

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