A coroa penhorada

O Corinthians era campeão até os 46 do segundo tempo. Aí apareceu o Galo, patrocinador oficial do desespero

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Já é sabido e murmurado por todos os lados que o Clube Atlético Mineiro tem uma relação sórdida com a aflição. De todos os sentimentos, parece que esse – justo esse – é o preferido da massa atleticana, que enxerga no desespero o ambiente ideal pra uma noite inteira de sossego e sono bem dormido.

O problema é que esse gostinho sacana anda envolvendo, agora, outras camisas que não só a do Galo.

Ontem foi a vez do Corinthians, que nada tem a ver com esse prazer devasso cultivado pelos becos de Belo Horizonte, sofrer as agruras da espera.

O time paulista andou o Brasileirão inteiro nadando uma braçada na frente de todo mundo, mas sempre com o Atlético a morder seus calcanhares dentro da água. Na rodada passada, contudo, o time de Tite se cansou do encalço e lançou três violentas cintadas sobre o lombo mineiro, medida definitiva para o fim daquele acossamento incômodo.

E agora, nesta 34ª rodada, o escrete de São Paulo jogava por uma vitória contra o Coritiba, em casa, esperando que o Atlético de Minas não somasse ponto nenhum no sul, contra o Figueirense.

Era um trabalho em duas partes.

A primeira, no sábado, em Itaquera, foi cumprida à risca, apesar da dificuldade. O Corinthians encontrou um Coritiba de fibra, que endureceu a peleja, mas sucumbiu no fim – depois de um pênalti não marcado e outras interferências menores da arbitragem, é bom dizer, porque nunca compensa encobrir os erros dos homens do apito.

Metade do trabalho estava feito e, então, o povão começou a preparar a festa.

Um carnaval fora de época era engatilhado por todo canto, sustentado por 30 milhões de almas sedentas que inventavam, cada qual sua farra íntima, seu sarau incontido.

 

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E veio, então, o domingo. E veio o jogo do inimigo. E faltaram sofás em São Paulo, que a essa altura se deleitava nos prazeres e nas aflições da televisão.

À medida que o jogo fluía naquele zero a zero com cara de definitivo, gente de todo o país afinava a festa, asseverando os últimos detalhes da epopeia.

A 4 minutos do fim, baterias inteiras de fogos de artifício já eram montadas no alto dos prédios, serpentinas já esperavam pra ser desenroladas, jornais já eram alinhados nas rotativas com suas letras garrafais celebrando a taça, abraços ensandecidos já eram ensaiados em profusão.

Mas não nos esqueçamos que o Atlético Mineiro está metido nessa encrenca e que, por isso, não há de existir bonança nem calmaria de qualquer espécie.

Foi então que Dátolo, filho pródigo da frieza, recebeu a bola dentro da área do Figueirense, dominou, fintou o beque, deitou o goleiro e estourou os barbantes, patrocinando um silêncio submisso no Orlando Scarpelli.

E os sorrisos dos corinthianos foram caindo das bocas, um atrás do outro. E as baterias de fogos de artifício foram recolhidas dos terraços, como foram também guardadas as serpentinas, ainda enroladas, e foram desligadas as rotativas e foram também anulados os abraços loucos e intempestivos.

E o campeão indiscutível teve de esperar mais um longo e tenebroso inverno pela coroa que, sabemos todos, já é sua, mas anda agora penhorada.

Tudo porque o Atlético-MG encontra prazer em ver tudo nascer difícil. Seja um título seu, seja um título dos outros.

 

SOBRE O ENCANTO E A BELEZA: RELEMBRE A VITÓRIA DO CORINTHIANS SOBRE O ONCE CALDAS

 

Foto de capa: Agência Corinthians  |  Foto de apoio: Alexandre Battibugli / Placar

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3 pronunciamentos sobre

A coroa penhorada

  1. S E N S A C I O N A L seu texto, Velho. Quem com ferro fere, com ferro sera ferido! Sua coluna reflete tres fatos latentes no futebol, brasileiro. 1 – O que envolve o CAM, brilhantemente comentado acima. 2 – O que envolve o Corinthians, a facilidade com que se encontram com arbitragens “amigas”, coisa alias que nao necessitaria neste campeonato e 3 -A mesma facilidade com que se depara o Coritiba de encontrar arbitragens predradoras, que lhe minguam as ja exauridas forcas. Ou seria coincidencia? Nos ultimos jogos, pelo menos quatro foram decididos pelas arbitragens. O que, por baixo, representariam oito pontos e o respectivo livramento da ZR.

  2. Grande Benjamin! De fato, as três coisas que você menciona são verdadeiras, penso eu. O Coritiba vive de tropeçar em homens de má vontade. E esse pode acabar custando caro.

  3. Por um breve momento, pensei estar de volta em 2011. Na arquibancada pro clássico entre Vasco e Fluminense, ouvido no rádio e recebendo a notícia da vitória do Corinthians. Naquele ponto o coração não me foi sentido no peito, mas logo depois o Bernardo me fez senti-lo de novo com aquele gol pra manter o Vasco vivo na briga. Não ganhamos mas reconheço que o Atlético briga tanto quanto o Vasco de 2011, é legal reviver esses sentimentos.
    Ótimo texto, meu velho :)

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