A Copa Sul-Americana devidamente inaugurada

Com um 4 a 2 febril, Figueirense e Flamengo abriram o torneio internacional com a fidalguia que ele merece

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Há jogos que se anunciam grandes desde que brotam na tabela, cultivando no povão a mais franca expectativa. Mas há também o contrário: jogos que prometem ser insossos, confrontos que, por um motivo ou outro, ou nenhum, simplesmente quase não contagiam na véspera.

Ontem, quando Figueirense e Flamengo se alinharam na cancha do Orlando Scarpelli para a execução do hino nacional, a expectativa era tão pequena que cabia no bolso de uma criança. Os catarinenses, mandantes do jogo, afinal andam apresentando um futebolzinho de repartição pública no Brasileirão, dormindo noite atrás de noite na zona do vexame; os cariocas, por sua vez, até empolgam o povão, mas levaram a campo um time misto, quase sem qualquer estrela.

Pois sucedeu que nada do que esperávamos aconteceu.

Bastou que os dois times tomassem lados contrários no campo e os jogadores foram todos tomados de uma severa cólera, de uma fome carrancuda, e passaram a perseguir a bola com a sofreguidão que um advogado corre atrás de habeas corpus em dias de Lava Jato.

E tal impulso ficou claro logo aos 3 minutos de pugilato, quando Rafael Moura testou firme contra o gol de Paulo Victor e marcou aquele que seria o primeiro gol da anárquica noite na ilha catarinense não fosse pela imediata anulação do porta-bandeira.

Mais cinco ou seis minutos se passaram até que Moura voltasse a fustigar a meta do Flamengo, dessa vez sem choro nem vela: chute de longe, no cantinho, e um a zero no placar.

Aos 12, quando a torcida alvinegra ainda jogava pipoca para o alto e distribuía calorosos abraços nas arquibancadas, Alan Patrick tratou de azedar o clima festivo e empatar a partida aproveitando um rebote.

E mais cinco minutos de sururu se passaram até que Marquinhos, camisa 3 do escrete sulista, testou com firmeza para o chão, como mandam os gibis, para chacoalhar o barbante carioca: 2 a 1 aos 17 do primeiro tempo.

 

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O Flamengo, ainda assustado com o ímpeto do inimigo, resolveu tocar a bola no fundo da cancha – nunca uma boa ideia, sabemos todos – e gastar o tempo, tentando acalmar o que vinha do outro lado. Mas Donatti, o beque argentino comprado a dólar, achou por bem escorregar exatamente diante de Rafael Moura, que jogava com a determinação e a disciplina de um estudante de medicina. Ora, não há qualquer problema em um zagueiro escorregar, desde que seja em casa, na banheira, na escada ou onde achar melhor, mas na cancha é mister que o último homem antes do goleiro mantenha a firmeza de um baldrame.

Enfim, o fato é que bastou ver o zagueiro caído que o polaco, sempre hediondo, lhe bateu carteira e ficou focinho a focinho com Paulo Victor, que fechou o ângulo como pôde àquela altura mas não percebeu que o teto estava escancarado. Foi então que o camisa 9, vendo os portões fechados, cavou a bola, mandou por cima do arqueiro, penteando seu cabelo com o carinho de uma gueixa, e marcou o mais genuíno golaço por cobertura.

Era o quarto gol em 27 minutos de espetáculo – um tento a cada sete minutos de baile.

 

RELEMBRE: FIGUEIRENSE VS AVAÍ PELA COPA DO BRASIL

 

O que veio depois disso foi, enfim, o sossego. A bonança que segue a tormenta. Os goleiros até continuaram trabalhando, mas sem oferecer ao povão o sagrado direito de gritar.

Veio o segundo tempo. E veio, junto com ele, Rafael Moura, carregado dos piores sentimentos. Bola cruzada na área e o moço das Minas Gerais deu com a testa nela, jogando o couro no colo do goleiro flamenguista, que, assustado e guardando uma tábua de passar debaixo da farda, jogou contra o próprio patrimônio.

O Figueirense abria 4 a 1 em um jogo febril, jogado dos dois lados do campo a todo instante.

E só há 15 minutos do fim é que o rubro-negro conseguiu romper a tramela catarinense com Marcelo Cirino, também de cabeça. Um golzinho miúdo naquela hora, com a derrota já largamente decretada, mas imenso em valor pois diminui consideravelmente o tamanho do trabalho carioca em Cariacica, no embate de volta, dia 31.

Mas para que o dérbi fosse elevado à condição dos jogos tinhosos, faltava ainda um ingrediente sul-americano, aquela patifaria própria da nossa cultura. E entre um cachorro invadir o campo ou o apagão dos refletores, os roteiristas do futebol optaram pela queda de luz, um desfecho sublime para cerrar as cortinas do espetáculo.

E assim, de um jogo que ninguém esperava nada, nasceu tudo. Uma partida com a fidalguia da Copa Sul-Americana, lavrada com a grandeza dos embates internacionais.

Que tudo o mais nela seja imenso como foi este Figueirense 4, Flamengo 2.

 

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Foto de capa: Cristiano Estrela, Agência RBS  |  Foto de apoio: Eduardo Valente, Flamengo

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