A camisa que se agiganta

É sabido e falado pelos becos da cidade: o Coritiba, quando quer, se faz imenso

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O povo do sul vive de ter algumas certezas imperturbáveis. Quem já bebeu o chimarrão quente destas praças ou já partiu o boi num churrasco na terra das araucárias conhece as convicções dessa gente. Por aqui, é sabido que não se pode reclamar do mate fervendo, nem ter asco da bomba, nem protestar da carne que vem ao prato sangrando, nem rechaçar a gordura duma picanha. Pois outra coisa que se sabe por aqui com toda a firmeza é que o Coritiba tem o hábito de se agigantar monumentalmente em alguns embates.

Ponha do lado de lá da cancha uma camisa pesada, repleta de tradição, que joga por música e que mira vorazmente o topo da tabela e teremos, do lado de cá do campo, um escrete mordido, colossal, embebido no mais genuíno desejo de vencer, fazendo cada poro trabalhar por uma bola.

Pois ontem, no Couto Pereira, o Futebol seguiu esse roteiro.

O São Paulo, dono do mais flamejante Futebol do momento – depois do Cruzeiro – e único desafiador ao trono, veio para Curitiba a fim de manter a distância do líder a uma lonjura exequível.

Do outro lado, o Coritiba estava exatamente como manda o script desse tipo de intriga: na zona de rebaixamento, com salários atrasados e o mais absoluto desprestígio.

Era uma briga desigual e, por isso mesmo, trazia o presságio de um duelo inolvidável.

E foi só começar o embate para termos nossas certezas infladas: hoje, seria diferente.

Os primeiros 45 minutos foram de um jogo duro, magro feito peste. Houve uma única bola. E ela foi doce, nascida nos pés ligeiros de Auro, com passagem pela cabeça certeira de Pato e parada final no pé canhoto de Michel Bastos, que chutou contra as redes de Vanderlei e inaugurou o placar.

O São Paulo precisou de uma bola para sacudir a zaga do Coritiba. Mas precisaria de um bocado mais para derrubar o povão – paranaense é um bicho muito ligado às suas certezas para esmorecer rápido assim.

Os escretes voltaram à campo e o respeito exagerado do time verde ficou no vestiário, lavando meias, enquanto o espírito animoso e resoluto assumiu todo e cada jogador.

Em 15 minutos, o Coritiba se agigantou, como pediam os corações certos dessa gente: Hélber encontrou o couro passeando perto da área inimiga e, vendo que ninguém fazia nada, emendou um chute forte, nascido na ira, que estourou as redes de Denis. Um a um.

 

Heuler Andrey / Getty Images

 

Um minuto e meio depois, quando a torcida tricolor ainda perguntava aos radinhos de pilha o nome de quem lhe havia ofendido, entrou em cena o paladino da noite – todo embate desse calibre, afinal, precisa de uma cabeça para vestir a coroa.

E o cocuruto premiado era de Joel, o camaronês, parceiro de bandeira de Samuel Eto’o. O africano, raça e gana, foi ao chão para cortar a trajetória tortuosa da bola e conferir a virada. Foi o mais genuíno delírio nas arquibancadas do Couto Pereira.

O São Paulo, impetuoso, cresceu para dentro da cancha Coxa e patrocinou 25 minutos de aflição do lado verde.

O sossego só veio quando Joel, mártir da madrugada, recebeu um lançamento magistral de Alex, desses que entortam espinhas e derrubam colunas militares inteiras, num único golpe.

O menino ficou de frente para o arqueiro são paulino. Era ele, o camisa 12 e o fardo de matar o jogo. Pois o menino não sentiu qualquer peso nas costas. Antes, parece até ter descoberto uma leveza singular nos joelhos, que dobraram para um lado e para outro, deitando o guarda-redes para, só então, com uma dose de malvadeza, estufar para as redes.

O fascínio era tanto que o camaronês, filho novo do Couto Pereira, saiu em desabalada carreira e, ao saltar a placa de propaganda acabou caindo inapelavelmente dentro do túnel do vestiário inimigo.

Silêncio no Couto Pereira.

Joel caía rápido como subira. Balão que alça voo muito ligeiro vai ao chão mais rápido ainda, dizia meu pai.

Mas o povaréu logo estourou numa festa dantesca: foi só ver o seu mais novo herói levantando para o seu galardão. O menino franzino, que vive de correr das pernas peçonhentas do beques, havia driblado também as escadas e o concreto do túnel número 2 do Alto da Glória. E ele já renascia fitando o povão nos olhos e batendo no peito e declarando que todos ali eram santos e mostrando o braço onde corre o sangue africano que, à distância, parece ser verde.

Ao cabo do jogo, os homens do São Paulo desceram ao vestiário pensando na derrota, os do Coritiba desceram saboreando a vitória e os arquibaldos, pra quem é montado todo esse circo, foram para casa sabendo que aquela partida, mais que os três pontos e a saída tardia da zona do desespero, valeram para asseverar o sentimento que já é comum à cidade toda: o Coritiba, de quando em vez, se agiganta feito um mastodonte.

 

Foto de capa: Geraldo Bubiniak / futebolparanaense.net | Foto de apoio: Heuler Andrey / Getty Images

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