A audácia de sorrir no dia seguinte

A Seleção Brasileira caiu vergonhosamente diante do Paraguai. E ainda assim, no dia seguinte, os jogadores eram pura alegria

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Um sujeito cabeludo, um metro e oitenta e nove, fone de ouvido pendurado no pescoço e mochila nas costas, acaba de desembarcar no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.

Perto dali uma miúda multidão de jovens, senhoras e outras figuras fáceis de levar no bico percebe a sua chegada. A calmaria vira um frenesi e, de repente, aquela gente toda se cerca do homem, fechando todo e qualquer espaço.

Não demora para as primeiras câmeras brotarem. Crianças puxam celulares dos bolsos, madames sacam telefones das bolsas e logo a cara do rapaz se multiplica em pequenas telas.

Imediatamente, o sujeito, antes sério, concebe um sorriso de comercial de margarina – testa franzida, dentes em profusão, olhar amistoso, mão no ombro alheio. Ele é a mais perfeita síntese do carinho e do carisma: amigo de crianças, carinhoso feito um urso de pelúcia.

O nome dele é David Luiz. E o posto que ele ocupa no país está abaixo apenas do da Presidente da República – ele é beque titular da Seleção Brasileira de futebol.

Um dia antes dessa imensa epopeia da alegria, ele o escrete nacional inteiro eram aviltantemente eliminados da Copa América pelo Paraguai.

Ainda assim, o rapaz sorri sem qualquer economia. A cada câmera que aparece, um sorriso diferente e fresco brota no rosto. A largura da boca até diminui quando as fotos cessam, mas todos ali podem sentir nele uma graça qualquer.

David Luiz, ali, naquele saguão, não deixa dúvida: é, ou pensa ser, maior do que a camisa que enverga.

A impressão que temos é que a Seleção caiu, mas ele está de pé.

A vida, afinal, segue. E segue boa. Logo começa a temporada europeia. O dinheiro chega sem racionamento. Os contratos publicitários fervem. Amanhã tem comercial pra gravar.

É importante manter um certo luto pela Seleção, mas mais importante é manter a imagem de figura simpática.

A rigor, zagueiro é a segunda ocupação de David Luiz – a primeira é arlequim de criança.

Mas nesse teatro de vaidades, ele não é o único Narciso. A rigor, quase todo o escrete nacional leva essa vida dupla, em que se é artista o tempo todo e boleiro nas horas vagas. Exceção aí a Miranda, Éverton Ribeiro e mais alguns bons samaritanos que parecem levar uma vida sem o tingimento dissimulado dos filtros do Instagram.

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200 milhões de desiludidos em casa, e Thiago Silva sorri

Cada um que chega naquele saguão parece ser maior do que a instituição.

Entre óculos escuros e sacolas do freeshop, os jogadores por quem se grita até o pulmão fazer bico se mostram seguros do que fazem e das fantasias que vivem.

É um acinte, sob todas as formas.

Era preciso que aqueles homens desembarcassem no Rio de Janeiro como os ianques desembarcaram na Normandia 70 anos atrás: faca no meio dos dentes, sede do próprio sangue e a vontade de dar a vida pela farda que veste.

Era preciso que cada selfie tirada naquele aeroporto mostrasse – sobretudo para crianças – o que é guardar o luto por uma camisa como a nossa. No lugar daquele sorrisinho sacana e fugaz, deveria haver vergonha e vexame, a cara amarrada de quem sabe que desapontou 200 milhões de pessoas que já não guardam mais fé na vida mas ainda têm um naco de crença no futebol.

Essa vidinha paralela e o jeito pop-star dos nossos jogadores são, definitivamente, a mazela mais importante do nosso futebol atual.

David Luiz, Willian, Daniel Alves e companhia pensam ser Pelé sem nunca terem sido sequer um Amarildo.

 

Foto: Chris Mussi / Globoesporte.com

 

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2 pronunciamentos sobre

A audácia de sorrir no dia seguinte

  1. É o paradoxo do dinheiro fácil. Amor ao futebol (porque não concordo com amor ao país ou a times) você nasce, vem de berço, com a família e é intrínseco. É por isso que Zidane, Pirlo, Seedorf, mesmo Paulo Baier, jogaram até 90 anos e sempre com dignidade. Diferente dos ronaldinhos gaúchos, adrianos cachaças e firminos.

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