Festinha de criança

O acaso, sempre um canalha, cobrou caro de Walter para estar em campo hoje à tarde

walter

 

Catarina nasceu de 6 meses. Um problema no colo do útero da mãe fez com que ela viesse ao mundo cedo demais, com o corpinho ainda inacabado, mãozinhas e pezinhos do tamanho de uma tampinha de refrigerante. Saiu da barriga da mãe para uma vitrine de vidro: isolada de tudo, temperatura controlada, tubos e outros dutos entrando e saindo pela boca e nariz, num trânsito triste e melancólico. Um corpinho de 760g ilhado na frieza de uma unidade de terapia intensiva. Se sobrevivesse, diziam os médicos, seria um milagre, uma obra de Deus, algo que escapava da medicina.

Calhou que a mocinha, decidida como toda mulher, escolheu que queria viver: brigou feito gente graúda, ganhou peso, silenciou a morte, trocou a UTI pelo quarto e, depois de três meses pelejando pela vida, saiu do hospital e conheceu o mundo.

Nos papéis do cartório, ganhou um segundo nome. Virou Catarina Vitória, que era pra carregar a romaria até o fim, pra nunca mais esquecer o valor daquela luta toda.

Eis que hoje, 23 de junho, a família comemora pela 5ª vez o aniversário da daminha.

Eu não conheço a moça nem sei bem da família, mas posso imaginar que não é um aniversário como qualquer outro – é uma celebração ferrenha pela vida, que quase não veio. E por isso, ficou tratado entre pai e mãe que nenhum evento do mundo pode ser mais importante do que esse.

Então, pra comemorar, os pais da Catarina combinaram uma festinha. Coisa simples, pra poucos amigos. Umas bexigas, uns brinquedos, uma mesa de docinhos. O que viesse além disso seria afago e ternura.

Acontece que ontem o pai da menina sofreu um golpe do acaso. Dessas pequenas malvadezas que a vida desenha.

Jogavam Chapecoense e Atlético-PR em Santa Catarina quando uma espessa névoa baixou sobre o campo e impôs uma cegueira branca a todos os homens, tal qual no livro de Saramago. E tudo o que seguiu foi loucura e desencontro.

Quando já não se via mais nada e a partida de futebol virava um imenso jogo de adivinhação, Francisco Carlos do Nascimento, o juiz, chamou os homens no meio da cancha e anunciou que o segundo tempo seria jogado no dia seguinte, às 15h – bem no meio da festinha da Catarina.

Na hora, ninguém gostou da decisão. Aqueles homens queriam todos terminar o serviço como de hábito e tirar aquelas botas e correr para suas casas e decretar o fim de mais uma das 38 jornadas.

Mas pra Walter foi uma derrota particular. Uma pontada forte no peito. E aí, não era como uma fisgada qualquer, em que se puxa a perna e pede substituição. A dor que dói na alma é coisa sem solução, é ferida que se guarda pra gente.

Então, na saída de campo, Walter conversou com um jornalista. E, mesmo derrotado, abriu aquele sorriso farto e bonachão, e disse ao repórter que preferia terminar tudo ali, naquela hora, sem demora, por mais difícil que fosse. E quando foi indagado sobre o porquê, falou com simplicidade e objetividade do seu futebol: “se eu ficar, eu perco a festinha da minha filha, que é amanhã”.

Walter ficou. O Atlético-PR empatou. E Catarina, apesar de Vitória, perdeu.

 

A foto é do O Povo Online.

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3 pronunciamentos sobre

Festinha de criança

  1. Vale salientar que o papai, foi após o jogo, de carro de Chapecó a Porto Algre (5 horas de viagem) para poder contemplar o sorriso e a vida da filha.
    No dia seguinte, pela manhã, o mesmo já estava novamente em Curitiba treinando.
    Viva a Catarina

  2. Que continue viva e vitoriosa a Catarina Vitória!
    Que continue vivo e vitorioso em sua carreira o Velho que nos emociona e traz para o “papel” a realidade dos campos, que desconhecemos.
    Parabéns, Velho… linda crônica..!

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