12 minutos para a eternidade

Alan Ruiz jogou dos 28 aos 40 do segundo tempo. E fez o que outras lendas precisaram de uma vida inteira para fazer

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Uma alma comum, formulada na frieza de um ventre qualquer, precisa de uma miúda coleção de Grenais para ser elevada à categoria de personagem central dessa trama centenária, costurada com nervos e veias de milhões de gaudérios e outros bebedores de chimarrão.

Raro é o cidadão que anota o nome no rol prestigioso desse dérbi entrando em campo uma única vez. E mais escasso ainda é aquele que só precisa de alguns minutos em campo para talhar sua imagem na memória do clássico.

Pois o Futebol, meus caros, vive de abrir suas deliciosas exceções. E ontem, os roteiristas da bola resolveram deitar a coroa sobre a cabeça magra de Alan Ruiz, um argentino que parece vestir a carcaça de Di Maria.

Contra toda e qualquer expectativa, o rapaz fez uso de ínfimos 12 minutos em cancha para sobreviver por duas eternidades nos devaneios mais insanos dos gremistas e dormir nos pesadelos mais lúgubres dos colorados.

Eram 28 minutos da segunda etapa e o Grêmio vencia o Inter por dois tentos a um, jogando em casa. Um placar, qualquer guri sabe, perigoso demais. E fica especialmente arriscado quando do outro lado da trincheira está uma camisa do peso e vigor daquela carregada pelo Internacional.

Era hora de Scolari mexer no time. E ele chamou do banco o sujeito esguio, cochichou instruções e inflamou a veia sul-americana do cidadão que, mesmo morando longe, já ouvia desde cedo as lendas de um Grenal.

 

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Alan Ruiz entrou em campo e precisou de meros 2 minutos de passeio pelo bosque verdejante da Arena para cravar a testa numa bola cruzada da direita por Zé Roberto, anotando o terceiro tento gremista e dando – agora sim – um naco de tranquilidade ao povão tricolor.

Mas havia ainda outra regalia prevista no folhetim do argentino. Seis minutos depois, feito um Gardel ardente, o camisa 11 levou Aránguiz para rodar, fitou Alisson nos olhos e escolheu o lado esquerdo do arqueiro para estourar um chute embebido em ódio, disparando o gatilho da alegria pela segunda vez no monumental estádio gremista.

Mil bandeiras desfraldavam pelo alto na farra carnavalesca de três cores quando Scolari resolveu sacar o guri do jogo, parcos 12 minutos depois de entrar. Doze velozes e vorazes minutinhos.

Dizem, com certa doze de razão, que foi pelo cartão amarelo que ele recebeu pela confusão armada ao comemorar diante da área do Inter, mas quem conhece um miudinho de Futebol sabe que a saída dele foi muito mais nobre do que isso – Alan Ruiz saiu para ouvir as palmas e o regozijo popular feito todo para ele. Saiu para que ouvisse o som que vai ecoar naquela cabeça franzina até o seu último dia.

Com a testa e o pé esquerdo, o argentino desconstruiu um tabu de dois anos e 9 clássicos sem estampar um sorriso na cara da sua gente. E ergueu uma pequena fábula para a história gremista no dérbi colossal do Rio Grande do Sul.

 

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Foto: Vinícius Costa / Getty Images

 

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